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sábado, 19 de janeiro de 2019

Do jornalista RUI ALMEIDA


“FAROL DE NEVOEIRO”


O rio, o poço e “uma espécie de presidente”

O facto: as “comadres zangadas” no PSD


Em política, nem sempre o que parece é. E as influências, os “timings”, os amigos, as teias de interesses comuns, a previsão de um lugar ou uma motivação pessoal de projeção exercem um estranho fascínio sobre atores que se tornam profissionais de enredos e guiões dignos de filmes premiados.

Comecemos pelo princípio: no PSD, a eleição de Rui Rio para a liderança nunca foi bem recebida por um conjunto de figuras gradas do partido, habituadas a uma clássica dança de cadeiras e a um bailado que nunca deixava ninguém de fora, fosse no parlamento, nas assessorias e consultorias, nas autarquias ou nas empresas de confiança. Uma espécie de “militância profissional”, que tornava o efémero permanente, e que transformava atores de ocasião em atores para as ocasiões. Tudo o que saia desta dinâmica de anos – bem diferente das ideias e da “praxis” dos fundadores do partido, designadamente de Francisco Sá Carneiro – é entendido como forte ameaça ao “status quo”, aos lugares adquiridos, às “posições para a vida”. Passa-se no PSD mas (é fundamental sublinhá-lo desde já) pode passar-se noutro qualquer símbolo ou quadrante da vida política portuguesa.

Este é um país em que os políticos assumem as suas funções como se de profissionais se tratassem, jogando e gerindo carreiras de acordo com lideranças, agendas eleitorais e objetivos pessoais. Nos social-democratas ou noutro qualquer partido. Porém, a ameaça na Lapa foi mais latente e pressionante. Rui Rio pode não ter o carisma de um líder nato, nem a capacidade de cativar, pelo sorriso fácil, uma parte significativa do potencial eleitorado. Mas representa, na génese, tudo o que alguns barões anteriormente instalados não pretendem: há um estigma de seriedade, de objetividade, de “corte a direito” com privilégios instalados que nunca foi bem entendido e muito menos digerido por algumas das figuras que marcaram os últimos anos da luta política e partidário em defesa do ideário “laranja”. 

O golpe palaciano tentado por Luís Montenegro não é mais, afinal, do que a reação prática a essa falta de comodidade interna. Independentemente das qualidades do ex-líder da bancada parlamentar social-democrata, importa reter o momento da sua tomada pública de posição. A menos de nove meses do mais desafiante ato eleitoral dos últimos largos anos, e num momento em que os diversos atores políticos se posicionam claramente em defesa dos seus projetos e programas, Montenegro tenta a desestabilização do navio, rebelando-se e revelando-se. A história pode não falar das suas motivações, mas apontá-lo-á, certamente, como o “enfant terrible” que procurou, a todo o custo, a defesa de privilégios e posições dominantes de muitos anos e que, com a atual liderança, ficam claramente em causa.

Rio ganhou o Conselho Nacional. Pede, agora, para “trabalhar com tranquilidade”. Mas terá o Presidente ganho o partido? E terá o PSD ganho coesão, ou a “zanga de comadres” revelar-se-á, a médio prazo, ainda mais nefasta?...

A figura: Julen, o poço e o destino

Podemos não acreditar no “destino”, no sentido determinante de que ele estará traçado à partida. Mas a história de Julen, o menino espanhol desaparecido nas profundezas de um poço com 25 centímetros de diâmetro, em Málaga, e da sua família, faz-nos pensar. Dois anos depois de terem perdido um filho de três anos, vítima de morte súbita durante um passeio à beira-mar, os pais de Julen revivem o drama e a quase inevitabilidade de dizerem adeus ao segundo filho, igualmente muito jovem, igualmente em circunstâncias tão macabras quanto inacreditáveis.

O processo de salvamento do pequeno Julen encetado pelas autoridades espanholas na sulista cidade de Málaga traz de novo à colação a imensa capacidade de mobilização e de sacrifício de que o ser humano é capaz quando se trata de procurar e salvar um semelhante. Na Tailândia, as imagens do grupo de jovens futebolistas e do seu treinador ainda estão na retina da opinião pública mundial como paradigma e demonstração pura do quão longe pode ir o Homem quando se une em torno de um objetivo nobre.

Desta vez (e escrevo este texto na sexta-feira, portanto, a dois dias da sua publicação no “Diário dos Açores”), não parece verosímil que o processo de salvamento chegue a bom porto. Não é crível que Julen sobreviva ao tempo, o inexorável fator que, neste caso, é o principal inimigo. Mas é ele, incontornavelmente, a figura desta semana. Ele e os seus pais que, num par de anos, perdem dois filhos em circunstâncias inacreditáveis e certamente caóticas para a sua sanidade mental. Que possam encontrar um no outro o ombro fundamental para iniciar uma recuperação que talvez, até ao final das suas vidas, nunca chegue a ser plena…

A frase:

“É tudo americano e se é americano eu gosto”. 
Donald Trump, ao oferecer um “banquete” de “fast food” à equipa de futebol americano da Universidade de Clemson. Hamburgueres e “pizza” na ementa, porque os cozinheiros da Casa Branca não se encontravam ao serviço, devido à paralisação parcial do governo federal.
Há Presidentes e presidentes. Trump, seguramente, não se enquadra em nenhum dos grupos.


A partir do próximo domingo (e no último domingo de cada mês), “As conversas de Rui Almeida”. Primeira convidada: Cristina Calisto, Presidente da Câmara Municipal de Lagoa e da AMRAA. 
“Farol de Nevoeiro” regressa no dia 2 de fevereiro.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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