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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Da Califórnia de Luciano Cardoso


CULTIVAR RESPEITINHO

Longe vai o tempo em que o cabelo branco nas pessoas era sinónimo imediato de respeito absoluto. Que eu saiba, isso foi-se. Ou, pelo menos, tem tendência a desaparecer. Cabelos alvos da neve nunca foram um tipo de moda fácil de pegar à toa, talvez pelo simples facto de acrescentarem idade à pessoa. Hoje em dia, desconheço mesmo quem goste de parecer mais velho do que é a olhos vistos. Vivemos numa era em que a imagem vale muito e a aparência conta mais. Há até quem não ligue tanto ao que é desde que pareça bem. 
Antigamente, ao menos no meu lugar, julgo que não era bem assim. Vivia-se mais a preto e branco, num simples sim ou sopas e não havia esta preocupação nítida que agora há pelo disfarce, dos cabelos e não só. É certo que as mulheres usavam lenço e os homens enfiavam chapéu. As cabeças andavam mais cobertas devido ao peso dos costumes ou à força da tradição. Uma tradicão, note-se, onde o respeito não tinha substituto. Ninguém me pode roubar estas imagens claras das duas décadas iniciais do meu gostoso viver ilhéu. Moldou-me rapazinho assim habituado a ver o cabelo branquinho das minhas avós, sempre que os seus lenços ou véus lhes desciam da cabeça. 
Emigrei e já lá vão quatro décadas d’América. Cá, a história é outra. Já sou avô e raramente deixo o cabelo branco que me resta adornar-me o casco ou o rosto. Rapo-o e pronto. É um descanso. “Até pareces mais novo, pequeno da minh’alma.” Minha mãe gostava de me dizer tal como a minha cara metade agora m’o diz. “Nem se compara.” Também já é avózinha. Contudo, ao contrário do costume d’outros tempos, mantém o seu cabelo do tamanho e da cor que sempre quis. Longo e escuro, tingido a primor, cai-me bem e acho que não lhe fica nada mal. 
Mudaram-se os tempos e com eles muitas das vontades. Os avós dos nossos dias, por esta América adentro, para não dizer por esse mundo fora, desde que tenham acesso às modernices, disfarçam a cor do cabelo de forma quase impecável. Até nas nossas terras de origem, desde que restem umas patacas para a cabeleireira, também já acontece o mesmo. Na cabecinha presunçosa da atual Terceira Idade cada vez se vai vendo menos cabelo branco. Está a desaparecer aos poucos, sublinhe-se, a par do respeito que havia por quem então o usava sem quaisquer ideias de lhe mudar a cor. 
A colorida vida dos nossos dias, no que toca a esse respeito como valor chave da nossa convivência social, tem muito que se lhe diga. Sobretudo, se a conversa habitual, à boa maneira portuguesa, desce ao futebol ou passa pela política, as cores clubísticas/partidárias parece que cegam as pessoas. E mete mesmo dó ver-se gente supostamente amiga pegada pela casmurrice parva que as aparta na mera oposição de opiniões ou paixões. Sou um apaixonado do Benfica mas tenho bons amigos do Sporting e do Porto, a quem muito respeito. Sou da opinião que Trump não devia ser presidente mas tenho velhos amigos que nele votaram e que merecem o meu respeito. Como convivemos sem recorrer a ordinarice do insulto...?... Cultivando respeitinho, já diziam os antigos – ‘se não respeitas/não mereces ser respeitado’. 
Quarenta anos d’América, a olhar para a Casa Branca, ensinaram-me a respeitar gente de quem eu discordo. Discordei politicamente dos George’s Bush, pai e filho. Não votei neles, tal como múltiplos milhões de americanos, mas isso não me impediu de simpatizar com a Dona Barbara – esposa de um e mãe do outro. Agradou-me sempre o seu estilo despretensioso e frontal como Primeira Dama estadunidense. Apesar de influente matriarca duma família afluente, não era senhora de soberbas desmedidas. Claro que não tinha papas na língua e, antes de falecer há poucos dias, chocou muita boa gente da sua cor política ao opinar que “não entendia como uma mulher, no seu perfeito juízo, pudesse votar no trampa do Trump”. 
Não sei também se o meu respeito e simpatia vinham mesmo da alva cor dos seus cabelos, tal como o de minhas avós, dando-lhe um ar maduro e distinto de senhora que soube ocupar com dignidade o seu lugar sem chamar a si atenções. O que sei é que o tal respeitinho à moda antiga anda p’las ruas d’amargura. “A Barbara Bush...?...Essa vaca se nunca tivesse parido/a América podia estar hoje bem melhor.” A estranha opinião saíu da boca dum sujeito que se tem por discreto e por quem tinha algum respeito. Talvez não lhe agrade o branco como cor legítima de cabelo, já que tinge o seu de outra cor. São gostos. Respeitam-se mas não se discutem.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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