O paraíso onde todos são felizes
Camacha, Chaves, Beira-Mar, Sp. Braga, Olympiacos, Sporting e Monaco: em 14 anos de carreira, Leonardo Jardim mantém o percurso limpo. Aos 42 anos, nunca foi derrotado em qualquer desafio na longa e difícil caminhada com início em 2003. Quando assinou pelo Monaco, em 2014, ia liderar uma potência europeia; à chegada, a realidade era outra: perdera as estrelas e moderara a ambição. Aceitou a mudança e não alterou uma vírgula ao discurso; não se lamentou mas também não concedeu um sorriso para amenizar o desfasamento e até as críticas miseráveis de que foi alvo. Fez o que lhe competia: adaptou-se ao novo estado das coisas, ciente de que não podia alterá-lo; avaliou, geriu e melhorou a oferta, sem lhe passar pela cabeça operar uma revolução. Simplesmente começou a trabalhar, de olhos postos num futebol referenciado por bom gosto e iniciativa, com o qual os jogadores se comprometeram, acrescentando espontaneidade aos automatismos construídos.
A ideia, grande e sedutora, é (foi sempre) orientada pela superação, capaz de convencer os adeptos e criar ondas de confiança para lá dos limites da insolência. LJ concebeu um projeto, definiu prioridades, sugeriu um estilo e melhorou alguns jogadores que, em seis meses, potenciaram o valor de mercado para níveis impensáveis. Feito um balanço mais ou menos sucinto, construiu um génio do futebol (Bernardo Silva); deu vida nova a um dos mais extraordinários pontas-de-lança dos últimos 20 anos (Falcão); está a fazer a gestão perfeita de uma referência da modernidade (João Moutinho); inventou um médio-centro de nível internacional (Fabinho) e lançou dois grandes talentos que vão valer milhões (Mbappé e Lemar).
LJ incutiu um ímpeto criativo indiscutível nos seus jogadores, promoveu jovens à procura de afirmação e renovou o espírito de veteranos já resignados aos efeitos do tempo. Como resultado desse trabalho excecional, o Monaco tornou-se armada temível, impermeável aos efeitos perversos do êxito (deslumbramento, arrogância, narcisismo…) e ao veneno limitador do fracasso (resignação, conflito, depressão…); uma equipa que nunca reclama os favores da sorte ou se queixa do azar; que define o plano de viagem de forma a depender quase em exclusivo das suas ideias, dos conceitos assimilados e das habilitações dos seus futebolistas. Na dúvida ou mesmo na dificuldade, recorre ao instinto ofensivo para reagir, desenvolvendo um raciocínio cuja expressão a transporta para o outro lado do campo sustentada em equilíbrio e contundência.
Sob o estímulo de personalidade dominadora e de uma autoridade moral inequívoca, LJ agitou espíritos adormecidos face ao domínio do PSG em França e resignados à impossibilidade de voltar a ser grande na Europa. Foi à luta e criou condições para sustentar o atrevimento; propôs um sonho e enquadrou-o com a realidade. Nunca perdeu de vista a necessidade de estabelecer um vínculo sentimental com o meio e recorreu a todas as armas para solidificar laços com jogadores. O Monaco vive, desde a chegada do treinador português, no paraíso onde todos são felizes e se expressam na plenitude; e elevou-se das trevas quando LJ agitou, à custa de um futebol esplendoroso, as emoções de adeptos pouco dados a estados de alma extremados.
Quando se propôs escalar o Everest, LJ revelou ambição a mais para a qualidade disponível. Era difícil chegar tão alto mas a equipa mostrou não sofrer de vertigens e foi vivendo bem com a ascensão – inspirou-se para viver as boas sensações de um voo majestoso, até chegar à liderança da liga francesa e às meias-finais da Champions. Um treinador tão competente, que sugere um caminho e o cumpre com escrúpulo, faz as delícias de qualquer clube. LJ está na lista do Barcelona? Estranho seria se outros colossos do futebol mundial não reparassem nele.
Pizzi foi grande
em Alvalade
O Benfica entrou mal, ofereceu um golo mas conseguiu evitar a derrota
Pizzi assinou em Alvalade exibição deslumbrante, das melhores (a melhor?) em jogos de elevado grau de responsabilidade e exigência. Encheu o campo e dominou o jogo, sempre disponível para receber e dar seguimento aos movimentos coletivos, sempre inspirado para tomar as melhores decisões e executá-las na perfeição. Quando o Maestro atinge este nível de excelência, não é só ele quem joga bem: é a equipa.
Adrien cresce
todos os dias
Parou um mês, fez dois jogos e esteve no dérbi como se nada tivesse acontecido
Adrien atravessa fase em que talento, confiança e maturidade excedem a importância do físico – não precisa de uma grande condição atlética para exercer influência esmagadora no jogo da equipa. Para lá de tudo o mais, tem aprimorado ao longo do tempo a condição de líder, de voz respeitada, para quem simples sugestão é entendida como ordem por todos quantos o rodeiam. Está feito um médio extraordinário.
Pode ser que
o deixem em paz
Não é a primeira vez que o FC Porto falha depois de o rival perder pontos
Nuno Espírito Santo cometeu erros ao longo da época, é certo, mas pode estar tranquilo quando os fundamentos de muitos que o acusam se prendem com a atitude no banco. Dizem que é muito passivo. Meu caro Nuno, sugiro que, da próxima vez, dance o fandango enquanto o jogo decorre e dê uns gritos como se não houvesse amanhã, mesmo sem sentido, para dentro de campo. Pode ser que o deixem em paz.

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