LENDA DO REI BAIXINHO
Bem, nem sempre os homens foram tão gordos como hoje. Em tempos muito recuados eram bem diferentes. Não direi que eram como uma linha ou uma perna de flamingo, mas... enfim, não estavam lá muito longe. Eram, digamos, elegantes.
Nesse tempo os homens eram governados por um rei baixinho e pequenino, que tinha um grande desgosto por ser assim. Chamava-se Taizum, este infeliz soberano. Não se sabe bem por que razão ele nasceu assim, diferente dos outros homens, que eram todos altos e magros. Elegantes, enfim. Eu acho que foi por capricho do destino. E certamente foi também por capricho do destino o que lhe aconteceu a seguir.
O pobre Taizum foi consultar um feiticeiro. -- Ora faça o favor de entrar, majestade. Em que lhe posso ser útil? -- Gostava de ser mais alto. Veja bem: eu sou o rei, não posso estar aqui a falar consigo e a olhar para cima.
-- É verdade. Tem toda a razão. E sem mais palavras, o feiticeiro voltou-lhe as costas e entrou num quarto escuro. Voltou logo a seguir com um enorme colar com uma pérola gigantesca no extremo.
-- Sua majestade vai colocá-lo ao pescoço, e durante um mês não lhe toca. Nem para dormir, nem para tomar banho, não o tira para fazer seja o que fôr.
E o rei assim fez, embora se tenha arrependido logo que colocou o colar. A pérola era tão pesada que o obrigava a olhar para o chão.
-- Sua majestade habitua-se, vai ver... -- prometeu o feiticeiro. Bem, a verdade é que durante o mês seguinte o rei mal levantou os olhos do chão. E foi algo zangado que se voltou a encontrar com o feiticeiro:
-- Não me parece o processo correcto! Então... eu sou o rei, e ando sempre com os olhos no chão? Não está certo, pois não? É verdade que eu gostaria de olhar os meus súbditos do alto do meu lugar, mas preciso de o fazer com uma certa altivez.
-- Compreendo. Vamos tentar outra solução. E lá foi ele ao quarto escuro. Desta vez voltou com umas botas que tinham uns saltos enormes. E deu-as ao rei para que as calçasse.
Taizum assim fez, com algumas dificuldades, é certo, mas, enfim, lá ficou altíssimo, obrigando a olhar para cima todos aqueles que desejassem falar com ele. Mas não era fácil andar em cima daquelas botas. O rei nunca encontrou o equilíbrio necessário, e assim andava alto mas sempre a oscilar e a caír de vez em quando. O que, entendamos, também não é postura de rei...
-- Eu não posso andar sempre a caír em frente dos meus súbditos! O feiticeiro já estava a ficar desesperado. Mas pensou então que o maior problema estava no contraste entre o rei pequeno e baixinho e os homens elegantes que eram os seus súbditos. E, não se podendo transformar o rei, que tal transformar os homens que ele governava? Eram tantos, era uma missão tão difícil, que ele só encontrou uma solução:
-- Alimente-os, majestade. Dê-lhes tanta comida que eles comecem todos a engordar e percam a elegância. Que fiquem gordos e horríveis, como devem ser os seus súbditos.
E assim foi. Com o passar dos séculos, os homens passaram a ser cada vez mais gordos, e os reis, esses, raramente deixaram de ser baixinhos. Até hoje.

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