Das nossas incertezas e indecisões
Nós, lusitanos, somos dados a profundas indecisões e a basilares incertezas. Por exemplo: à pergunta “Como estás?”, respondemos invariavelmente: “Assim, assim”; “Mais ou menos”; “Vai-se andando”; “Vou escapando”. Raramente dizemos: “Estou bem” ou “Estou muito bem”, e “Estou mal” ou “Estou muito mal”.
É inata a nossa tendência para a imprecisão. Se calhar porque não gostamos de nos enganar:
-Como está o tempo?
-Não está frio, mas também não está calor.
Afina pelo mesmo diapasão a nossa juventude. Diariamente sou confrontado, na minha escola, com tiradas como esta:
-Correu bem o teste?
-Podia ter sido pior.
E depois existem aqueles diálogos falhados que constituem o paradigma da incomunicação perfeita, da surdez integral:
- Vais à pesca?
-Não. Vou à pesca.
-Ah, pensava que ias à pesca.
De resto, a língua portuguesa presta-se a este tipo de incomunicação:
-O barco já chegou?
-Se queres que te diga, não sei.
E sinto vontade de dar bofetadas quando me perguntam o óbvio. Por exemplo: quando estou de férias na minha Graciosa ilha, é habitual fazerem-me esta pergunta:
-Estás cá?
Ao que muito polidamente respondo:
-Não, estou em Nova Iorque…
Há aquele outro exemplo clássico de dois casais portugueses que se encontram num bar. O primeiro pergunta: “Onde é que vocês vão logo à noite?” E o outro esclarece, fulminante: “Vamos sair”. Riposta o outro casal: “Para onde?” Dão-se as coordenadas: “Vamos aí a um sítio qualquer”. Pronto. E eles? “Ó pá, nós em princípio também estávamos a pensar em ir aí beber um copo”. “Aí onde?” Resposta: “Aí a qualquer lado”. “Então está bem. A gente vê-se por aí”. E assim se combinam grandes e profícuos encontros…
No relativismo subjacente ninguém nos leva a palma:
-O filme é bom?
-É… dentro do género.
E, em matéria de ambiguidade e de subentendidos, somos mesmo mestres:
-Vou ali fazer uma coisa que tu não podes fazer por mim…
Por via dos nossos vaticínios fracassados, lançamos dúvidas ao ar:
-Então, o Benfica vai ser campeão?
-Eu já não digo nada…
E há aquelas perguntas desnecessárias que fazemos nos restaurantes:
- O goraz é bom?
O empregado é obrigado a responder que sim, mesmo que quisesse recomendar um peixe melhor…
E, com toda a certeza, somos o único povo no mundo que assim chama os empregados de mesa:
-Psst…
Isto é que é falar português direito e que se entende…

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