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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA


continuação

Disse várias vezes, de várias maneiras, que diz o que pensa. Já pensou alguma coisa durante esta entrevista que não disse?
Não. Limito-me a responder ao que me pergunta. Tem outras?
Porque é que é tão torrencial?
Não sei. Sou muito açoriano, vulcânico. Mas depois fico sereno como uma lagoa, quando acabo. 
Às vezes expludo, perco as estribeiras. É feio. Quando se chega aí, perde-se a razão, por mais razão que se tenha.
Tem algum vulcão de que goste muito?
                                           
                                                      
 Gosto mais de ver as lagoas do que os vulcões. Às vezes expludo, perco as estribeiras. É feio. Quando se chega aí, perde-se a razão, por mais razão que se tenha. 
O que é que o faz vir por fora (para manter a metáfora do vulcão)? 
Acho que o fechamento das pessoas ao óbvio, ao não reconhecimento de evidências empíricas e argumentos lógicos, se bem que na vida haja muito que ultrapasse esses domínios. Estou sempre disposto a manter uma conversação animada ou a falar a qualquer público. A minha regra é parar imediatamente se vejo pessoas dormir. Um professor americano pediu a um aluno: “Importa-se de acordar a sua colega?” O aluno respondeu: “Eu? Acorde-a o senhor, que foi quem a pôs a dormir” [risos]. O professor, no fim da aula, viu-os passar de mão dada. Afinal eram namorados. Disse-lhe: “Com que então, a sua bela adormecida...”
Disse que gosta de memórias e autobiografias. Uma autobiografia sua em meia dúzia de linhas, pode fazer? À luz deste que é hoje, que tem 67 anos, o que é que é essencial?
Sou dos Açores. Não é essencial, é existencial. Gosto muito de ser de onde sou. Os Açores são um universo imenso e vivi ali 20 anos da minha vida e regresso todos os Verões. A nossa infância e adolescência são fundamentais no processo de ver o mundo. Com 20 anos, quando vim para Lisboa, já sabia o que é que queria da vida.
Ainda não percebi o que é que quer da vida.
Quero prolongá-la eternamente [risos]. Sei que não tem solução, mas é uma vaga esperança que nos sustém. 
O que é que queria da vida aos 20?
Tinha a minha personalidade basicamente formada. Não sabia exactamente o que iria ser, mas hoje reconheço que não me distanciei muito do que me entusiasmava. Escrevi um livro sobre meios de comunicação social, publicado nos Açores em 1970, onde estão expressas muitas das questões que ainda me ocupam. Claro que com a ida para os EUA aos 25 anos deu-se uma grande viragem. Mas não na minha maneira de ser profunda, apenas no modo de encarar o mundo.
Isso é porque os seus afectos são em língua portuguesa? Porque a sua formação foi cá?
Não por causa da língua, mas da cultura. Dou uma cadeira e escrevi já bastante sobre isso da formação dos nossos gostos. Porque é que, para a maioria dos portugueses, o bacalhau é melhor do que a comida chinesa? Cresci aqui. Não emigrei, alarguei fronteiras. Estou na América e sinto-me em casa. Mas fundamentalmente sou português, dos Açores.
Romance, ficção, escreve em português porque essa é a língua da sua criação.
Sim. Dou aulas em português e em inglês, escrevo ensaios em inglês. Outra coisa é criar. Falo inglês com sotaque. Toda a gente fala inglês com sotaque se aprende a língua depois da puberdade. 
Com os seus filhos, fala um português com sotaque açoriano ou praticamente sem sotaque, como está agora a falar comigo?
Não há sotaque açoriano. Existe o sotaque micaelense, da minha ilha. O sotaque das outras ilhas não tem nada a ver. A razão por que as pessoas dizem isso é porque é o mais notório. Falo como estou aqui a falar. Falo em qualquer sítio da mesma maneira. Sou sempre o mesmo. Vou de calção para a praia e uso smoking em eventos formais, mas sou sempre o mesmo.
Para voltar ao lugar da partida, fale-me de um personagem que tenha criado. Ou de uma criação. 
Escrevi teatro. Uma das peças chamava-se Ensaio Geral e era sobre um ensaio geral, e a bagunça que isso era. Cheio de elementos da vida real. O último livro de ficção que publiquei chama-se Quando os Bobos Uivam; são todas histórias reais. Daquelas histórias, há um por cento que não é real, mas não digo qual é. Não tenho imaginação capaz de inventar histórias mais interessantes do que as que vejo acontecer.
Gosta dessa bagunça e desse desconcerto que a vida tem…
Não é assim tanta bagunça. Selecciono as histórias que me interessam e ilustram aquilo de que estou a falar. O chato é um indivíduo que quando está a conversar não sabe a diferença entre um facto interessante e um facto não interessante. Alguém disse uma vez: um montão de factos sem uma única teoria é botânica. Um montão de teorias sem um único facto é filosofia. A sabedoria está em encontrar o meio-termo.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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