Continuação
Ao falar do élan vital e do pessimismo que impressionava Pessoa, parece falar do Portugal destes dias. É uma marca da nossa cultura este pessimismo?
Creio que sim. Pessoa quis reagir contra o pessimismo derrotista que imperava no final da monarquia e depois no período da 1.ª República. Ele não era um activista, mas uma saída para o país que via de braços caídos. A sua concepção é engenhosa, brilhante mesmo. Mas não é para ser tomada à letra, como tem sido feito por gente que lê a Mensagem sem ler o que Pessoa diz dela ou sem perceber as pistas que ele deixa por todo o lado. Pessoa era um homem de ideias, um ruminante que lia tudo, mastigava e deitava fora o que não lhe interessava. Ainda assim absorvia imenso.
Ensina Cultura Portuguesa na universidade.
Não tinha nenhum treino em Cultura Portuguesa, excepto a que levava nos ossos quando fui para os Estados Unidos aos 25 anos.
Tinha estudado Filosofia.
Sim. Eu fazia doutoramento em Filosofia em Brown [University] e um grupo de professores queria criar um Centro de Estudos Portugueses. Vieram ter comigo e juntei-me a eles. Pus-me a ler tudo o que encontrava sobre o tema e comecei a identificar os temas mais recorrentes e a mitologia do nosso imaginário: os descobrimentos, a decadência, o sebastianismo, os estrangeirados, a renascença portuguesa com um pensamento muito provinciano, todo voltado para o passado como se mais nada tivesse acontecido no mundo.
As palavras que usa são de terra e não de mar. A ilha era um lugar de fantasia?
Quando se vive numa ilha, a ilha é tão grande como o mundo. Só nos apercebemos da pequenez dela quando saímos. Na minha segunda classe, anunciaram a visita do director escolar que vinha de Ponta Delgada e eu julgava que era o Salazar do quadro na parede à minha frente.
Perguntava-se, quando era miúdo, o que é que existia para lá do fio do horizonte?
Sim. Fui sabendo da existência de um outro mundo lá fora. Mas adorava a minha ilha, que achava lindíssima, que era o melhor dos mundos.
Então sente-se basicamente açoriano?
Costumo dizer: quando fui para a Terceira, percebi que era micaelense. Na Madeira, senti-me açoriano. Em Lisboa, vi que era insular. Em Espanha, reconheci-me português. Em Paris, já era ibérico. Nos EUA, europeu. Na China, achei-me decididamente ocidental. Se um dia for a Marte, hei-de sentir-me terrestre.
Quando fui para a Terceira, percebi que era micaelense. Na Madeira, senti-me açoriano. Em Lisboa, vi que era insular. Em Espanha, reconheci-me português. Em Paris, já era ibérico. Nos EUA, europeu. Na China, achei-me decididamente ocidental. Se um dia for a Marte, hei-de sentir-me terrestre.
Com que é que se espantava mais na infância?
Tive uma infância feliz. Íamos muito ao mar e passear para montes de onde se desfrutavam belas vistas. Mas o mar era perigoso e só íamos acompanhados de adultos. O mar dos Açores não é para brincadeiras.
Teve o espanto da natureza, o impacto da natureza?
Sim. “O mundo é o meu mundo”, disse Wittgenstein. As lagoas, as montanhas deslumbrantes, os passeios e os acampamentos ficaram para sempre comigo. A antiga questão do valor intrínseco é muito séria. Um pôr do Sol é belo porque fomos habituados a senti-lo assim ou é mesmo belo em si? Eu, sem ninguém me ensinar, fiquei apaixonado pelo belo da natureza em meu redor. Daria panos para mangas esta questão da objectividade/subjectividade estética.
Nos seus diários, Wittgenstein fala de como a experiência da guerra havia mudado o seu pensamento filosófico e o seu mundo. O que é que, a si, o pôs em contacto com o coração do mundo?
Foi decididamente a emigração. Só entendi Portugal na diáspora, só lá me entendi (se é que me consigo entender). Ver os emigrantes no embate diário com o universo anglo-americano permitiu-me observar os conflitos de valores, de visões do mundo em acção. Sempre me senti atraído por uma frase que ouvi a um professor: “As couves nascem do chão.” Percebi que o empirismo, aquilo que se nos mete pelos olhos dentro, foi mais forte que todas as teorias lidas nos livros e moldou a minha visão do mundo. Sempre que um autor, Marx ou fosse quem fosse, não estivesse de acordo com a realidade que eu observava, era a realidade que triunfava na minha compreensão das coisas.
Retomemos a ideia de cartografia, caminhos principais e secundários, bifurcações. Quais foram os momentos decisórios, os grandes passos no mapa?
Não sabemos quais são as forças que nos movem. Somos um produto de forças genéticas e culturais (aquelas que encontramos na nossa interacção com o mundo). Sinto-me produto de ambos. Reconheço em mim muito que veio dos meus pais, da minha família, da minha educação. Ainda hoje sinto inclinações que alimentam hábitos que eu já tinha em criança. Tenho muitas semelhanças, até físicas, com o meu pai. A minha mãe notava isso. Dizia-me: “És o teu pai chapado!” Na boca dela, não era um elogio.
Como é que era o seu pai?
Eu em bruto. Explico-me: o meu pai não tinha mais que a 3.ª classe, que era o obrigatório no seu tempo. Mas não me acho nada diferente dele, nem sequer na minha maneira de ser, após tantos anos de instrução. A polidez que tenho é apenas intelectual, a dos livros que fui acumulando. Nada mais.
Apesar da genética, dos constrangimentos, há coisas que são do domínio da vontade e da escolha.
É a velha questão: gosto das coisas porque elas vêm ao encontro das minhas inclinações naturais ou porque a vida me moldou para gostar delas assim? Acho que somos o resultado do encontro das duas forças. Costumo dizer que fui para o seminário (aos 11 anos) com a vocação do meu tio. Ele tinha-me precedido no seminário. A minha escolha decisiva foi sair (aos 22). Há uma interacção contínua entre a inclinação natural e as experiências que a vida nos vai proporcionando. Desenvolvi isto no meu livro De Marx a Darwin — A Desconfiança das Ideologias (Gradiva, 2009).
A distância geográfica e o salazarismo ajudavam a fazer dos Açores uma autêntica bolha. O Santo Cristo era o Pai Eterno. Tudo começava e acabava na religião. Mas no seminário li Mao Tsetung, que não me impressionou, e Marx, que mexeu comigo.
Alguma vez considerou seriamente ficar no seminário?
Não imagina como era viver nos Açores nos anos 50 e 60, onde imperava uma religiosidade medieval. A distância geográfica e o salazarismo ajudavam a fazer dos Açores uma autêntica bolha. O Santo Cristo era o Pai Eterno. Tudo começava e acabava na religião. Mas no seminário li Mao Tsetung, que não me impressionou, e Marx, que mexeu comigo.
Continua


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