MAIS POPULARES
É professor na Brown, é ensaísta, escreve ficção. Tem um personagem preferido? Júlio César, Álvaro de Campos? Podemos definir o que são os personagens de ficção e também o que faz deles heróis.
Interessam-me mais as ideias do que a literatura, onde sou um visitante e leitor por gosto. Custa-me a entrar num universo ficcional. Só leio romances quando posso lê-los sem interrupções. Para entrarmos na ficção, temos de nos deixar embarcar. De qualquer modo, quer na ficção quer na não ficção o meu desejo é entender o mundo. E tanto a ficção como a não ficção ajudam.
Precisa menos de enredos e precisa mais de ideias? É conhecido como um grande contador de histórias.
Sim, pelo-me por uma boa história. O nosso quotidiano está cheio de ricas histórias que se entrecruzam e mutuamente se enriquecem. E a História fascina-me. Também gosto de autobiografias, de livros de memórias. Em ficção, quero que ela me ajude a penetrar no real. Shakespeare, por exemplo, é magnífico porque nos faz entrar no universo escuro dos seres humanos.
Falei em Júlio César porque imaginei que um dos seus heróis seria um personagem shakespeariano. Todos precisamos de mitos.
As pessoas que mais admiro são pessoas que conheci ao vivo.
Diga-me cinco. Se gosta de autobiografias e memórias, vamos começar por traçar vagamente a sua a partir das pessoas que admira.
Mais do que um herói, tenho uma constelação de gente que admiro em particular. Na minha adolescência e juventude, um tio e o filósofo José Enes tiveram grande influência na minha vida. George Monteiro e Eduardo Lourenço. A Leonor, minha mulher. Nunca pensei fazer uma hierarquia.
Aprendo de onde me chega a luz. Sou muito ligado à vida. Quando falo, frequentemente conto histórias para ilustrar uma ideia. Uma ideia abstracta, abstrusa, de repente torna-se clara com uma história ou uma experiência da vida real.
Não é uma hierarquia, é uma cartografia.
Então ultrapassa os cinco. E depois não sei porque é que um será melhor que o outro. A minha avó materna foi importantíssima. O monsenhor Lourenço, um velho professor de Inglês, ensinou-me imenso com as suas histórias. Há tanto que aprendi de gente simples. E lidei com pessoas de alto nível que não me ensinaram nada de especial.
Continue connosco. Temos muitos outros artigos para si
Registe-se no PÚBLICO e acompanhe o que se passa em Portugal e no mundo. Ao navegar registado, tem acesso a mais artigos grátis todos os meses.
Há pessoas que parece que sabem o mundo a partir dos livros e não ensinam nada. E há outras, iletradas, que têm uma compreensão íntima do funcionamento da vida.
É. Aprendo de onde me chega a luz. Sou muito ligado à vida. Quando falo, frequentemente conto histórias para ilustrar uma ideia. Uma ideia abstracta, abstrusa, de repente torna-se clara com uma história ou uma experiência da vida real.
Por exemplo.
Recentemente estava a falar da importância do [filósofo] Henri Bergson para Fernando Pessoa. Tentava explicar o que era o élan vital, de Bergson, no momento de criatividade do artista. E, para o público a que me dirigia, ocorreu-me o Pauleta como exemplo.
Como é que foi dar ao Pauleta? Mistura filosofia e futebol.
As pessoas queixavam-se de que ele não construía jogo, mas na verdade ele estava lá à frente imensamente atento e, no momento exacto, surgia oportuno para disparar.
O seu livro mais recente é Pessoa, Portugal e o Futuro. Os seus objectos de investigação são Portugal e Pessoa?
Tenho dois níveis de interesses: a nível teórico, a questão dos valores e das mundividências. A nível aplicado, Portugal. O meu interesse por Pessoa adveio do seu interesse por Portugal.
Neste livro, mais do que de Bergson, fala da influência do filósofo Georges Sorel no poeta português. Pode sintetizar o seu contributo?
Descobri que Pessoa, tal como Sorel, são os únicos pensadores no mundo que usam um conceito de mito especial. Em vez de uma explicação do passado, situam o mito no futuro, como íman a concitar os ânimos e os desejos das pessoas, de modo a operarem uma transformação social. Trata-se de uma construção e por isso Pessoa considera-se um “sebastianista racional”. Ele sabe da “verdade da mentira que criou” porque “o mito é o nada que é tudo”. São expressões dele. A minha leitura pretende ser uma reconstrução do puzzle que era a mente de Pessoa ao lançar-se na escrita de Mensagem. E ele explicou-se todo melhor do que ninguém.


Sem comentários:
Enviar um comentário