Texto relacionado com a comemoração dos meus 50 anos de carreira
Talvez fosse natural esperar de mim que dissesse o quanto aprendi com Carlos Alberto Alves no fim da adolescência, muito antes de ainda de me tornar jornalista profissional, quando, primeiro com Mário Rodrigues e depois com ele próprio, me iniciei nisso de escrever nos jornais. Sim, posso dizê-lo: aprendi muito. Mas tudo o que então acontecia à minha volta, como é próprio das crianças, eu apreendia. Na verdade, foi já homem feito que eu vim a adquirir do Carlos Alberto a maior de todas as lições. Estava em meio de profundas mudanças na minha vida, a caminho do regresso aos Açores e desejoso inclusive de deixar em definitivo de ser jornalista, para me dedicar a tempo inteiro à ficção, quando tornei a olhar para o seu trabalho. No passado, Carlos Alberto revelava um faro pela notícia e um gosto pela história em geral que impressionaria qualquer um. Hoje, Carlos Alberto já nem tinha à sua disposição os mesmos canais do passado – e, no entanto, continuava a persegui-las: as notícias e as histórias. Não havia um jornal para onde pudesse escrever diariamente? Escrevia uma vez por semanas. Os jornais estavam a morrer? Escrevia em portais, escrevia no Facebook, contava histórias na rádio, ao telefone. Já não estavam à sua frente os jogos de futebol que dantes o ocupavam? Escrevia sobre a sua paixão por Roberto Carlos e puxava pela memória para escrever histórias do passado da ilha Terceira e dos Açores: da sua cultura, da sua sociedade civil, dos seus heróis. Creio não exagerar se disser que, em parte, se deve a ele, e ao garbo com que usa essa palavra, “jornalista”, eu ter redespertado para o jornalismo. Acabei, inclusive, por revalidar a carteira profissional, caducada há anos. E hoje, não é raro eu pensar na sua paixão sempre que tenho uma notícia à minha frente e pouca paciência para dá-la. Acho que nunca fui tomado assim, por um desejo dessa dimensão. Invejo-o. Mas, em todo o caso, guardo o seu ensinamento para a segunda metade da minha vida. Não me será apenas útil: será, até certo ponto, redentora.
Fim da conversa no bate-papo.


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