O Carnaval aproxima-se a passos largos,pelo que hoje cumpre-me o gosto e a responsabilidade de partilhar uma época tão alegre, desde a infância e até agora. Falar do Carnaval na Ilha Terceira é uma tarefa agradàvel mas exigente, pelo entusiasmo e mobilização que provocava (e provoca) na população de todas as freguesias. Uma importante tradição a preservar.
Na minha infância, era quase sempre nos Biscoitos, meu lugar de nascimento que passava esse periodo festivo.Ia a casa dos vizinhos dos meus avós, onde havia sempre umas filhoses fritas e um licorzinho ou aniz para saborear. O aniz era servido nuns copos pequeninos e grossos, muito embaciados, talvez ainda com o sabor do ano anterior....No Largo da Canada de São Sebastião, ao lado da casa do José Chocalho (em cuja camioneta transportava barris de vinho de cheiro que vendia por toda a Ilha), ficava a casa da Tia Joaquina, uma senhora de idade, que vivera muitos anos no Brasil, e que não tinha filhos. As crianças vizinhas eram tratadas como netos).Ela fazia um torta viana deliciosa, que com o seu sotaque ainda brasileiro, oferecia ao neto do Tio João da Fonseca, meu avô materno e produtor de vinho de cheiro, em cuja casa a parteira deu um toquezinho para que esta alminha viesse ao Mundo....
Neto de vinhateiro, mesmo miudo, já bebia o seu copinho...Tirando os comes e bebes, o meu juizo ia mais para as danças de carnaval, onde o mestre com espada e o ratão das bocas foleiras eram as minhas figuras preferidas.Danças nas ruas (nos terreiros), preferencialmente nos Largos com mais espaço para figurantes e público. Temas históricos, com reis (na época não havia o rei do Parlamento Açoriano, que pela sua figura e verborreia daria um bom ratão...) e dramas amorosos, com traições, mortes e tudo o mais que se possa imaginar.
Nos salões já havia danças de pandeiro e bailhinhos, em menor número do que hoje, quando qualquer Manel arranja um comparsa e ...lá vai disto... Festa do povo e para o povo. Ao estalar do foguete (sinal que chegara uma dança), lá corria até à Sociedade Filarmónica Progresso Biscoitense - a Sociedade "de baixo", por contraste com a Sociedade "de cima", no Bairro de São Pedro.Rivalidades doentias....
Ainda na infância mas na cidade de Angra, assistia no Teatro Angrense às matinés Regina, com desfile de fantasias.Ao longo do ano guardavam-se as pratas do chocolates que eram trocadas por bilhetes de ingresso no Teatro.A transacção era feita nos escritórios do Sr Alberto Ferreira (representante da Regina), na Rua Rio de Janeiro, hoje rua da Carreira dos Cavalos), em frente à Junta Geral (hoje Secretaria Regional da Educação e Cultura). Matinés muito concorridas, cheias de crianças fantasiadas (a carochinha, o policia, o padre, o enfermeiro (que não estava em greve), etc, etc.e que eram conduzidas pelo Sr João Ávila, locutor do Radio Clube de Angra. As melhores fantasias eram premiadas com vistosas caixas de bombons e a decisão correspondia à duração das palmas da assistência.
Já na adolescência fui-me apercebendo das outras faces do Carnaval, que passavam, por exemplo, pelos bailes no Lawn Tenis Clube, no Alto das Covas (mais elitistas)e Clube Musical Angrense (mais populares), ao lado do Jardim e Central de água.Na B.A.4 havia bailes nos clubes portugueses de Sargentos e Oficiais. Numa fase mais recente passaram também para alguns hotéis e Clube de Golf e até em plena rua.,Uma iniciativa muito usada na minha juventude, eram os "assaltos", tipo bailes de garagem onde quem tinha um salão grande em casa convidava os amigos/as para um bailharico em que todos tinham de levar comes e bebes....Boa diversão low cost....
Tal como agora, um mês antes do Domingo de Carnaval, começavam as comemorações das 5ªs feiras, com a sequência dos Amigos, Amigas,, Compadres e Comadres.Um pretexto para umas comesainas, pôr a conversa em dia e um convivio folgazão.Os tempos foram mudando e hoje algumas das 5ªs feiras são mais elaboradas e quiçá menos genuinas...Gostos não se discutem, muito menos no Carnaval onde ninguém leva a mal.Recuando no tempo, recordo-me de algumas danças na Praça Velha (sem palco), actuando no chão e onde numa dança, para começar, cantavam ".... o mestre da nossa dança é uma criança....viva o povo velho e novo..."Algumas danças ficavam da parte de fora do Radio Clube de Angra, no Alto das Covas, onde eram transmitidas em directo ou gravadas, conforme os meios técnicos disponiveis.A nível de Comunicação Social, hoje, O RCA e a Radio Horizonte costumam fazer transmissões directas de Sociedades. Entretanto apareceram no meio audiovisual a Vitec e o Kanal das 12, sem esquecer a RTP-Açores que faz (ou fazia?) directos e diferidos de danças e bailhinhos - não sei se o pessoal já foi todo despedido?!... É que eu pago taxa de audio-visual com a conta da luz, e tenho direito a saber o que se passa para além da descoberta da Califórnia recentemente feita pelo Governo Regional!....
Há bailhinhos que vão aos E.U.A. onde também se organizam bailhinos, como por exemplo no Salão da Artesia (Califórnia).
Alguns artefactos de Carnaval eram comprados na antiga Loja do Pedro Amiguinho, na Rua da Sé, ao lado do Armazém Zeferino.Ali, entre," ainda não chegou, já esgotou ou está a chegar", havia serpentinas, sacos de confétis, maternicas que se esfregavam numa pedra ou cimento e faziam faisca, bombinhas em cujo pavio se ateava lume e faziam pum... e as indispensàveis "fonas de porca", um género de berlinde fràgil, que facilmente se partia e libertava um liquido intensamente mal cheiroso preferencialmente deixado cair à entrada da sala de aula e com o pé em cima, acidentalmente e que provocava a ira dos professores e a risada dos alunos.... Nunca se sabia quem era....
As serpentinas, máscaras e confétis enfeitavam salas de baile, palcos de Sociedades, tourada dos estudantes, etc. Davam um colorido especial e um rolo de serpentina bem lançado quase enrolava o pescoço da menina amada....
O Carnaval dá pano para mangas e há já vários anos, como recentemente referi, o Teatro Angrense e o Auditório do Ramo Grande passaram a receber danças e bailhinhos, em versão "gourmet", em contraste com as Sociedades Filarmónicas e outros salões, onde com piores condições o Carnaval é mais típico.É o Carnaval low cost. Anda-se de freguesia em freguesia, petisca-se aqui, bebe-se ali, dá.se um abraço ao Tio Jaquim que anda desgostoso com o preço do leite igual ao da uva mijona...e ainda se encontra o Michael que antes se chamava Miguel e que veio de propósito do Canadá para assistir ao Carnaval.Mal me vê dá ordens para o bar da Sociedade: " Uma beer pra mim e uma cerveja para o meu amigo. Ah grande Michael!....Em segundos, o homem do bar põe 2 frescas com a espuma a transbordar pelo gargalo, em cima do balcão. Queres chicken do Deniz? Eu cá tenho é desconsolo duma perna de coelho fritada,,,,Pois que seja....my friend....E destas vivências se vai fazendo o Carnaval que não pára.
Nos últimos anos os bailhinhos começam mais cedo com as actuações dos chamados seniores, uma mescla de 3ª idade com gente nova e que dá uma vivência inter-geracional (é assim que dizem os sociólogos e politicos) e que eu na minha forma pobrezinha de falar, apelido de mistura de idades...
Há quem defenda que o Carnaval Terceirense deve ir para o Guiness por ser a maior manifestação de teatro popular do Mundo....Para o Guiness deverá ir o 1º Presidente do Governo Regional dos Açores, não micaelense!....Se calhar o melhor era exportar o nosso Carnaval para São Miguel que eles em três tempos tratavam do Guiness....
Missão Impossivel? Eu também já vi esse filme....
No Carnaval de Angra, na 2ª feira à noite, a seguir ao Domingo Gordo, a Rua da Sé enchia-se de mascarados. Uma iniciativa espontânea, colorida e com muita animação.Era o aquecer dos motores para os bailes, principalmente no Clube Musical Angrense, com a música brasileira "....eu vi a Eva de mini-saia dançando o yé-yé-yé...." e outros à espera de um slow, para não mexerem os pés, ou então levantarem os pés do chão, o mais alto possível?!....Nunca percebi até hoje aqueles estranhos movimentos, talvez por ser um pé de chumbo....Na minha inocência ouvia dizer que no Carnaval era assim e não se faziam perguntas. O que que sei é que se fizeram e desfizeram namoros e até casamentos....O resto foram paixões mascaradas de amor.
Nos anos sessenta, com curta duração, realizaram-se algumas batalhas de flores, organizadas pelos estudantes do Liceu, com rapazes e raparigas transportados em camionetas de carga, quase todas emprestadas pela Câmara Municipal..Lentamente percorria-se as principais ruas de Angra, atirando flores aos transeuntes e mirones das janelas das casas do percurso. A partir da segunda volta começava a guerra, com um fartote de água transportada em bidões nas camionetas e que apanhava quem não fugisse, quer na rua quer nas casas. Com o decorrer dos anos o pessoal da rua e das casas foi-se preparando e tornou-se forte e feio....Estou a lembrar-me duma cena, na Rua Direita, numa casa ao lado da antiga Sapataria da Moda, que alugava quartos a professoras do Liceu e onde uma camioneta parou. Foi tipo, toma lá que me destes uma negativa, leva lá tu que não vou com a tua cara!....Até que as "munições se esgotaram....A batalha da flores não chegou a tradição e esfumou-se em poucos anos.
Nos últimos 18 anos apareceram os "taroleiros", um grupo de cerca de 40 amigos, antigos estudantes, muitos passados pelas touradas de Carnaval, que na 6ª feira que antecede o Carnaval e depois de bem jantados, se juntam no Alto das Covas e desfilam até à Praça Velha, tocando tarolas, tambores, pratos, panelas e tudo o que der jeito para fazer barulho....No fim escolhem lugar onde saibam que há festa garantida e a noite terminará de manhã....
Deixo para o fim a Tourada dos Estudantes, um acontecimento que marcou o Carnaval da Terceira, de forma vibrante e inesquecível, onde participei como interveniente directo e fazendo parte de uma comissão organizadora.Convidado o Presidente da Comissão, esta escolhia a respectiva equipa.
Com a devida antecedência começava-se a preparar a tourada: Planear, organizar, concretizar. Brincadeira com responsabilidade. Sem TV nem redes sociais, tudo fluia. Gente criativa e operária para a construção das estruturas necessárias. As reuniões preparatórias sucediam-se, normalmente no Liceu Algumas vezes as reuniões de trabalho eram feitas ao jantar, no "Escondidinho", na Rua Direita, onde houve a Auto-Turistica Balalaika ou no antigo restaurante Zé da Lata, na Rua de São João, onde hoje existe uma óptica ao lado da Pastelaria "O Forno", da D. Ana Maria, uma mulher que cultiva as nossas tradições.
Das reuniões eram sempre lavradas actas (muitas fiz), em livro próprio que parece há muito ter desaparecido.Assim se deu cabo de um pedacinho das nossas vidas e sobretudo de um Carnaval que não volta mais. Um pontapé na história de uma geração que passa a vida a gritar que não consegue fazer a tourada e ainda não pensou que é preciso ter Alma e vontade de arregaçar as mangas....para que as tradições se mantenham, se é que isto lhe diz alguma coisa....
No meu ano de Comissão o Presidente foi o Luis Bretão, um Amigo que na altura organizava tudo e mais alguma coisa, até retiros espirituais para jovens, com o slogan "amar sem pecar"...., que deu um grande contributo para a diminuição da natalidade, nessa época, na Ilha Terceira?!...."Amar sem pecar", mas que raio de frase...Significado? Era só olhar para a miuda ou rapaz?O certo é que quando ele encontrou a Luisa, o lema pegou-lhe fogo e foi pelos ares até hoje...
Voltemos à tourada. Abriam-se as inscrições para quem quisesse participar. Exclusivamente para os alunos mais velhos, com excepção de alguém que pela sua originalidade ou intuição tauromáquica, enriquecesse o espectáculo. A procura excedia sempre a oferta, pelo que muitos ficavam de fora.Eram escolhidos os temas mais falados na época com piadas locais e pontualmente nacionais.
Entretanto as raparigas do Liceu tinham-se organizado em grupos e nas respectivas casas faziam os "cocotes"(bolinhas de farelo envolvidas em papel de seda), e que durante a tourada serviriam de armas de aremesso para os espectadores..Se o dia estivesse de chuva, os "cocotes" funcionavam melhor, com mais peso e mais poder de sujar. Caso contrário teria de levar-se umas esguichas com água e outros apetrechos. Passados alguns anos,o Governador do Distrito, Dr Machado Pires, mandou proibir esta violência e atentado aos bons costumes?!....Enfim, coisas do tempo da "Outra Senhora", pois quem ia aquela tourada, estudante ou não, sabia ao que ia.
Entretanto a Comissão aceitava reservas de bilhetes para os camarotes, que em poucos dias esgotavam. O mesmo sucedia com os restantes bilhetes postos à venda. Com sol ou chuva, a lotaçao da Praça de Touros de São João (actual Centro Cultural e de Congressos), ano após ano, esgotava.
Duas semanas antes do Domingo Gordo, havia a tenta no mato, no tentadero do ganadero que fornecia os touros para a tourada. Muita festa, bebida, comida e ensaio geral, sobretudo para os forcados que levavam a coisa mais a sério.
Contagem decrescente e uma semana antes a Comissão dava a volta à Ilha, de carro, para divulgar o espectáculo para o qual não havia bilhetes. Uma tradição popular que as populações apreciavam e a aparelhagem sonora chamava a atenção. Paragem obrigatória no restaurante Garça, na Praia da Vitória, para almoço. Restaurante que ficava em frente ao actual Auditório do Ramo Grande.
Ainda tinha de se fazer o programa da tourada, impresso na tipografia do Sr Álvaro Lounet, pessoa de fino trato.A tipografia ficava na Rua de São João, no mesmo lugar anteriormente referido como actual óptica. Programas em papel muito fininho e tecido de seda para os elementos da Comissão.... Uma fineza que mereciamos.O programa era prèviamente "visado pela censura, não fossem os estudantes provocar algum tumulto....Para os mais novos isto quer dizer que não podiamos escrever nada que ofendesse o Governo e tantas coisas mais. Era ou te calas ou te lixas...No programa anunciava-se ganadaria, "espadas, forcados e campinos (os pastores) , com aguilhada e tudo e cuja única missão era segurar no pau!..., à mistura com nomes hilariantes, inventados conforme a inspiração do momento.
Na 5ª feira anterior à tourada começava a funcionar e "estação de radio WC, na Rua da Sé, no depósito de sapatos da Sapataria Aliança, na esquina da Rua da Sé com a Rua do Salinas, por deferência do proprietário, Sr Adalberto Martins.
Na varanda do 1º andar também fui locutor dessa estação. O horário era das 12h às 14h e das 18h às 21h. Muita gente a ouvir, na Rua da Sé, a publicidade à tourada. "Vão comprar já bilhetes para a tourada para não verem o letreiro lotação esgotada". Inventei e interpretei novelas radiofonicas, noticiários e outras coisas mal imaginadas....No controlo de som o "Giloca".As piadas a quem passava na rua sucediam-se. sobretudo a estudantes mais velhos. Os mais novos não tinham estatuto para tal.
As miúdas passavam e fingiam-se envergonhadas....As que tinham um palminho de rosto, mini-saia ou outra coisa mais laroca, lá andavam para cima e para baixo, a taparem a cara e a pedi-las...
Lá chegava o Domingo de Carnaval, com o cortejo a sair do Liceu, descendo a Ladeira de São Francisco até `Praça Velha e subindo a Rua da Sé rumo ao Alto das Covas e Praça de Touros de São João.Todas as ruas do percurso estavam cheias de gente, que aplaudia,dava gargalhadas dizia e ouvia piadas. Um espectáculo o cortejo dos estudantes!....
Viaturas com construções em madeira e cartão, cartazes com muitas piadas rapaziada que não largava o "arranhão", bebida alcoólica, com sabor a aniz, que afastava medos e maus olhados e levava alguns ao hospital para lavagem de estômago....
A radio WC tudo descrevia, em rigoroso exclusivo, com um entusiasmo e descrição aumentada do que ia desfilando.
Já na Praça toca a música e sai o primeiro touro... Chovem "cocotes" por todos os lados, ouve-se o olé do público ao primeiro passe, vai uma cornada numa construção que voa .
Entre gritos e risadas um mais atrevido leva uma "pastilha" que não sente porque o "arranhão" tudo tornou dormente...
Segue-se a pega feita com mestria. É uma alegria.
Acabada a tourada, cada um para suas casas tomar duche e vestir o fatinho que mais logo temos o jantar no Restaurante Beira-Mar, do Sr Almeida, nas imediações do Páteo da Alfândega, onde existe o actual mas com configuração diferente.
Comida e bebida na mesa, cada um conta a sua aventura. Grande convivio e camaradagem.
Passadas umas semanas ou meses lá vem a conta do empresário Marcelo Pamplona, proprietário da Praça de Touros.Grande receita mas o problema é que teve de mandar caiar a Praça, parte da bancada, um prego para aqui um parafuso para ali. Analisadas as coisas vocês não me devem nada nem eu devo nada a vocês....Até parecia o Salazar, que dizem ter sido bom em finanças e outras andanças....
Pró ano há mais....se calhar.
Bom Carnaval e até à próxima.

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