MARAVILHA
A noite cai lentamente sobre a costa norte da Ilha. O sossego faz-se sentir na mornaça do verão a consolar tudo e todos. Esfalfado de outro dia escaldante, o sol quer-se deitar e pede à lua que o substitua. “Está na hora, minha amiga, de brilhares a gosto. Agosto agradece. É o mês das noite deliciantes e dos luares divinais.
No céu não se vê uma nuvem. O mar parece azeite. Deve ter dado folga às marés porque nem uma se mexe. Repousam, tranquilas, enquanto ele, mansinho, se rende ao magnânimo astro-rei a acomodar-se no seu habitual descanso noturno. São amigos e dão-se às mil maravilhas. E que maravilha da natureza não é vê-los ambos, à noitinha, abraçados ao céu sobre a linha do horizonte em sincronia colorida de beleza estonteante.
A norte da formosa Ilha Lilás, os meus pitorescos Biscoitos sempre ofereceram essa inconfundível delícia paisagística a quem os visita do cair da tarde para a boquinha das noites brindadas pelo bom tempo. Quem lá nasceu e cresceu, habituou-se a descer à aprazível orla marítima para absorver o mavioso espetáculo. É qualquer coisa de se lhe tirar o chapéu.
Meu pai era um devoto pescador de pedra. Cedo me passou o vício ao levar-me pela mão, nas tardes de domingo, até aos calhaus da nossa costa sempre muito acolhedora para com os pescadores de palmo e meio. Pescávamos peixe mais miúdo que nos servia para enganar a fome e me deixava feliz da vida. Lembro-me muitíssimo bem depois, a caminho de casa, de lhe tirar o juízo para que me deixasse ir com ele à pesca da noite. Já me tinha contado de grandes pescarias com amigos nas rochas altas das vizinhas Quatro Ribeiras apanhando abróteas, congros, badejos, canejas e sei lá que mais. Fascinava-me ouvir aquilo e a curiosidade mordia-me à medida que o tempo passava. Pescar de dia tinha o seu encanto próprio mas aquele peixe grado do fundo, bem mais pesado e vistoso, desafiava-me a imaginação e sempre comandava outro respeito.
“A pesca da noite não é para badamecos.” Meu pai tentou explicar-me. “O peixe puxa mais e requer traquejo para o trazer cá p’ra riba. Além disso, para se pescar bem de noite tem que ser às escuras. A lua espanta e o peixe é esperto. Esconde-se e não vem à isca.” Percebi mas não me convenci. “Pai, ouvi dizer que é nas noites de lua mais cheia que se pode apanhar uma sereia.” Sempre bem humorado, o meu bom velhote preferiu não se rir e pôs-me a ingenuidade à prova. “Sereias nunca vi mas já apanhei muitas primas delas.” Os meus olhos brilharam incrédulos. “Primas?” Meu pai não cedeu. “Sim. Uma destas noites vamos lá abaixo para veres bem como é.”
E assim foi. Essa minha ansiada chance chegou. Caniços às costas, tocha na mão e lá descemos pela Rua de Mangas até à Canada da Salga para, em tempo quase nenhum, estarmos prontos no Pesqueiro da Sorva avistando o anoitecer na Graciosa. É mesmo um mimo a Ilha Branca vista dali àquela hora. Deleita-nos ao lançarmos o anzol à água com uma apetitosa isca de chicharinho apanhado na véspera. Prateando o mar quieto à nossa frente, a lua espreita comigo a ponta do caniço à espera da mordidela. Por vezes, demora. Tudo depende da fome do peixe a passear nas redondezas. Torna-se um jogo de paciência, virtude indispensável ao atento pescador de noite.
Meu pai era um sujeito pachorrento. Sabia esperar pela sua sorte. “Parece andar por ali um peixinho esfomeado.” Notou a nicada e logo depois sentiu a seda a puxar-lhe as forças para o fundo. “Não te disse?” Não era preciso dizer mais. Vejo-o retesar os músculos dos dois braços firmes a trazerem à superfície da água uma espécie de cobra marinha algo agigantada para o meu minúsculo tamanho. Abro a boca, abasbacado. A víbora agita-se furiosíssima por se sentir cativa. Meu pai não consegue fechar a sua boca, surpreendido. “Ela é uma linda moreia. Mas vai ter de apanhar a sua tareia.” Tinha que ser. Um tosco cacete de faia da terra trazido para o efeito adormeceu o bicho com uma verdascada feia. E pronto. Foi a primeira vez que vi trancada uma das primas da sereia.
Ao cair serena sobre os meus airosos Biscoitos, a noite seguinte apanhou-nos lá em casa a comer moreia frita à ceia. Era um sabor deveras especial que me caíu logo no goto para ficar. Fiquei, por instantes, a lamber-me todo. Hoje lambe-me a saudade. Agosto trazia sempre um largo sorriso ao rosto de meu pai que celebraria na força deste verão mais uma risonha primavera. Quem me dera poder abraçar-te, meu valente pescador, e agradecer-te, não tanto o peixe com que tantas vezes nos saciaste como sobretudo o zelo que sempre puseste ensinando-me a pescar neste revolto mar da vida.
Outra amena noite desce sobre esta pacífica costa do norte da Califórnia. Agosto, cá da quietude do meu quintal, também me oferece o firmamento relativamente estrelado com a lua a encher-me a ilusão de que lá, na atlântica orla norte da Ilha Dos Meus Amores, os calhaus continuam à nossa espera. Quem me dera, meu pai. Quem me dera…

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