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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Da escritora Graziela Veiga


ACORDEI A SAUDADE...❤️

Hoje, mais uma vez, o meu pensamento voou para muitos anos lá atrás, quando era criança, quando era feliz sem o saber...mas quando me sentia muito amada por todas as pessoas que fizeram parte da minha infância. 
Comecei por visualizar a casa onde nasci, os lugares que aprendi a amar, a casa dos meus avós, tios, vizinhos e amigos, que desde sempre fizeram parte do meu Mundo. 
Era tudo tão simples! Parecia que tudo corria sobre rodas, apesar de todos os males que advinham, mas quando somos crianças, conseguimos ultrapassar tudo pela força dos pais. 
Recordo os primeiros anos de Escola, os meus amigos e colegas, além dos Professores, sobretudo os que foram exímios no seu exemplo, como educadores e como pessoas. 
Nos dias de tempestade, tal como o dia que está hoje, eu não tinha meio de transporte além das minhas pernas, tal como os colegas. Saíamos de casa perto das nove horas, pois era relativamente perto, talvez uns dez minutos de viagem. Combinava com as colegas para que nos pudéssemos juntar e chegar ao mesmo tempo à Escola. Não tínhamos pressa, a viagem era sempre interessante, motivo de conversa, brincadeira e mostrar o material escolar que tínhamos adquirido, quase a fazer (inveja) aos colegas, mormente às raparigas, são mais sensíveis a esses pormenores. 
Antes de sairmos de casa, tomávamos a primeira refeição do dia. Pão caseiro com manteiga e queijo, quando havia, com "café" de cevada, coado com um pano. Era tão bom! Ou então, leite fervido com migas de pão de milho, também caseiro. E assim ficávamos até ao meio-dia, hora de almoço na Escola. 
Recordo a sopa de couve da Srª Evangelina, tão boa e saborosa, guardo o sabor até hoje, bem como o aroma. 
Cada dia era único. Aquando o mau tempo, a chuva forte, em hora da camioneta passar, lá parava a meio do percurso, mesmo fora de paragem, a fim de nos dar boleia, e assim evitava que apanhássemos uma molha, até à Escola. 
Ainda me lembro quando o vento era mais forte do que nós, com os nossos corpinhos frágeis, o atravessar da Praça, centro da freguesia. Nós dávamos as mãos, pois evitávamos voar. Não era brincadeira, é que o vento mandava-nos para o canto da praça num ápice. 
Apesar de todo o frio, tinha o coração quente de todo o amor que recebia da minha família, de uma forma extremosa, dos meus pais. 
A Escola, além de ser um lugar de aprendizagem, também servia de ponto de encontro, onde por momentos, esquecíamos todo o mau tempo, ou o que nos fizesse ficar tristes, pois o convívio com os colegas e amigos, colmatava todas as faltas que porventura pudéssemos sentir. De facto o amor é capaz de operar milagres. A felicidade de ser criança e sentir-se amada, faz toda a diferença e marca-nos para toda a vida. 
Quando chegávamos a casa, tínhamos sempre a sopa abafada feita pela minha mãe, e que sabia tão bem, além de aquecer o corpo, aquecia-nos a alma. Jamais comerei sopa tão boa! 
Por isso, é muito importante, todo o tempo que se dedica às crianças. Elas vão lembrar-se eternamente e jamais esquecerão o quanto foram amadas, e decerto, serão mulheres e homens felizes. O amor solidifica as pessoas. 
Além dos amigos que estão espalhados pelo mundo, recordo aqueles que partiram na sua última viagem, aqueles que estiveram a meu lado, comigo privaram e me deixaram muita saudade. 
Tenho presente, os meus vizinhos, aqueles que não sendo família, era como se fossem, pois o convívio de muitos anos, faz-nos sentir família, ou até mais, pelo facto de estarem mais perto. As guloseimas que eram próprias daquelas casas, as que guardo até hoje. Os bolinhos da Srª Isaltina, as cerejas do Sr. Ferro, um sargento vindo do Continente que casou nas Doze Ribeiras, e tive a sorte de serem meus vizinhos, pois pelo facto de trabalhar e residir na Base das Lajes, permitia que saboreássemos iguarias que eram raras para aqueles lados. Além das delícias feitas pela Srª Mariquihas, a avó da minha amiga Luísa Trindade. O molho de feijão com batatas da Maria Gertrudes, tão bom. As favas escoadas da minha mãe, sempre colocadas num prato grande, e que faziam a delícia da família.
As sopas de milho com leite e cacau, na casa dos meus avós. Ainda lhes guardo o gosto. Nunca mais comi cacau tão gostoso. 
Sinto falta de tudo o que vivi e contribuiu para a minha felicidade. O cheiro do campo, sem dúvida, único. O ruído, aquele que gravei e que me marcou e que guardo até hoje. O vento a bater no rosto, o frio, o granizo, que apesar de muito gelado, fazia a delícia das crianças. Quem não experimentou comer granizo com açúcar, não sabe a sensação que perdeu!!! 
As brincadeiras com os amigos, as tardes que se tornavam curtas para tanta invenção. Esgotava-se o tempo, mas a brincadeira nunca, pois a imaginação era fértil. A necessidade aguçava o engenho, sem dúvida. Éramos criativos. 
Tenho pesar de não ter podido dar a oportunidade da infância que eu vivi, à minha filha. Éramos desprovidos de tantos bens materiais, mas nunca achamos falta para a nossa felicidade. As brincadeiras de rua são as mais saudáveis e as que ficam para a vida...
Vivi numa época em que se dava valor à vida, às pessoas. Vivíamos intensamente os acontecimentos. Dava-se valor à família e havia mais tempo para se estar com quem se amava. 
Não era tudo rosas! - dirão alguns - e não eram. Mas foi o melhor tempo que passei em termos de família, amizades e tudo o resto que me fez tão feliz. 😍
20-02-2019
Graziela Veiga
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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