Do livro Arquipélago do Sentir
CONTINUAÇÃO
De Propósito
Ficou-lhe o renovar da fantasia, com uma ternura tímida que explodia na alma e no peito, fazendo cordões de angustia renovada, em pontos de dor que se lhe colavam de novo.
Abria as mãos, tirando verdes e algas, ouvindo a canção dos búzios, para ter razão de existir, aguentando a herança eterna, desse vento que a criara.
Descobriu o mistério das raízes, entre cada mãozada de areia rolada nos dedos.
As horas desistiram de partir nos paquetes e as malas atadas a sisal, à espera da esperança de mudar o horizonte, circulavam entre marés e rochas.
Constelações de bruma que guardavam todos os segredos... segredos de amigos de correrias loucas, enfrentando o Ti'Bailhão, guardião encantador do Jardim Público, amigos de ler poesia em grutas de pedra rendilhada...amigos de tempos de ilha.
Cegonha de branca plumagem que a trouxeste no bico, que rota celeste utilizaste?
Que fogo começando de mansinho, que brasa teimando ser chama que embala o seu barco em ondas de ternura...
Um sol poente, um mar feito cetim e o começo de mim, dizia.
Uma angústia que aparece sem dizer porquê (a complexidade do ser)...
Quem a mandou brotar na terra das hortênsias e as colasse a si.
A ilha tinha braços e olhos, corriam-lhe ribeiras dos olhos, ia saindo daquele casulo de lírio roxo... moldando seus olhos em aves de se poisar, que devoravam com gula as noites em que sonhava estrelas.
Desceu a Ladeira de São Francisco com as partilhas feitas, uma resma de papel, um lápis e dois amigos do peito, pintando de verde o trevo por dentro de si, alongando os olhos em paragens de imensidão... estava tudo tão igual cá por baixo.
... E era no sol escaldante dos meses de Verão
vestídinhos de branco
caminhando sem pressa
em alas formando colares de vida
que os meninos seguiam nas coroações
do Espirito Santo...
Uma semana antes treinava ela
Pelo meio da casa
Enquanto o pai tocava clarinete...
Construiu na passagem dos anos, o dique dos espaços a preencher, suspendendo as horas em fios de dor, mais que simples encontros de mar com terra era o espaço do afecto e tal como este, só pode, ou não pode ser.
Trepava-lhe pelo corpo, encostando-se-lhe aos sentidos, abrindo crateras que doíam. Esta era Maria, a que unia as saudades como tufos de hortênsias.
Quando o pensamento parecia liso, sem um segredo, tingia o seu ser em turbilhões de vermelho, como borboletas tontas de cansaço.
O canto recôndito desse eterno mar que a navegava, carecia de barcos e velas, para enganar a imensidão.
Às vezes as tardes cumpriam-se, impregnando-a de voos encapelados, soltando-se em vapor, assim, juntava as peças soltas na caminhada, sentindo que as palavras se vestiam de verde e sol, cheirando a alegria. Edificava o verbo esperar.
Sentada, nas rochas da beira-mar, ali se conheceram, ilha e ela, assim se sentiram e se partiram em duas. No exacto lugar onde nasce o dia de atar e cortar cordões... e ficara, olhos soltos no rosto, enchendo, nas rochas da beira-mar, ali se conheceram, ilha e ela, assim se sentiram e se partiram em duas. No exacto lugar onde nasce o dia de atar e cortar cordões... e ficara, olhos soltos no rosto, enchendo o peito daquela ilha de marés tão prenhes como poesia.
Voltaram a nascer rosas e bem-me-queres nos caminhos... voltara atrás, procurando a outra parte, essa metade que era partida.
O seu barco de interno navegar amotinara-se.
Agarrou no peito aquela ilha e retirara a saudade sempre, que tinha descido em vertigem de ondas, no momento certo de ela ter nascido Maria a que ardia no coração da terra.
Caminhou muito, sozinha, subindo o tempo como degraus, soprando este seu bafo em todas as vidas que a ilha tinha.
Era o tempo do branco, de fugir à sua condição de gaivota, dançando pés de lava, agitando asas em círculos de penetrarem mares e ondas, corpo inteiro de um ilhéu, qual cerimónia mágica, disparando o arco da fantasia.
Manhãs e tardes fora enfeitiçando-a sem tafulho, crescendo absolutamente certa daquela ilha em si vivente.
A ilha era assim o seu navio, Terra-Alta, ou terra à vista?
CONTINUA o peito daquela ilha de marés tão prenhes como poesia.
Voltaram a nascer rosas e bem-me-queres nos caminhos... voltara atrás, procurando a outra parte, essa metade que era partida.
O seu barco de interno navegar amotinara-se.
Agarrou no peito aquela ilha e retirara a saudade sempre, que tinha descido em vertigem de ondas, no momento certo de ela ter nascido Maria a que ardia no coração da terra.
Caminhou muito, sozinha, subindo o tempo como degraus, soprando este seu bafo em todas as vidas que a ilha tinha.
Era o tempo do branco, de fugir à sua condição de gaivota, dançando pés de lava, agitando asas em círculos de penetrarem mares e ondas, corpo inteiro de um ilhéu, qual cerimónia mágica, disparando o arco da fantasia.
Manhãs e tardes fora enfeitiçando-a sem tafulho, crescendo absolutamente certa daquela ilha em si vivente.
A ilha era assim o seu navio, Terra-Alta, ou terra à vista?
CONTINUA

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