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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Da poetisa-escritora Maria Azevedo


Do livro Arquipélago de Sentir 

Continuação 

Era este o modo especial e ciclónico de entendimento mútuo.
Ilha - ela, Ela - ilha, era um querer tão fundo como navios perdidos em segredo.
Qual ancora fincava-se à sua beira, embarcando-a com vento de feição em palavras-poemas, suadas de nós cegos e nem o dia de quatro estações trazia calmaria à outra que era ela por dentro daquela que a habitava.
Nascida, Atrás-das-Hortas, fazia mundo nas águas furtadas, daquela casa de porta verde e janelas de madeira viradas ao ilhéu maior.  Paredes meias do sótão, era o irmão, o das engenhosas, sucata, galenas, quilociclos, megaciclos e um perpétuo “do not disturb” na porta do quarto e na do peito.
Enfeitava-se de verde e saía, procurava o mar aquele deus dos seus sentidos e ideias desinquietas (sempre novas em folha) ia fermentá-las ali p'rá marginal do Pátio da Alfândega, atirando caroços de nêsperas às ondas, entretendo sonhos altos, contando-lhe as histórias dos seus ciclones a Oeste da ternura, do seu coração por vezes sem postigo e os seus dedos percorriam contra a muralha, os musgos dos vapores, secando as notícias trazidas pelo vento, em lenços de acenar despedidas.
Voltava mentalmente à sua infância, já descia a Rua do Galo, passava correndo a Praça Velha... Escola Primária... Alto-das-Covas... ainda era o tempo das rosas em botão, ainda era o tempo das esperanças e dois bolsos de bata alva, cheios de gaivotas, milho de freira, pevides torradas...
Dentre este subir e descer foi-lhe o toque das trindades à Igreja da Conceição, germinando as sua saudades de estar e partir, plantando nela o amor ilhéu, numa amálgama de ondas que a enredavam toda.  Colava-se aos seus escritos de bico de vela, queimavam-se-lhe os dias em vésperas de coisa nenhuma.
Batia-lhe a ilha nos pulsos, pulsação sísmica de ilha - menina - solidão e ela soltava-a, soltava-a.
E se partisse?  Apanhava a camioneta das quatro, mala aviada, via Biscoitos,
Canada de S. Sebastião... aquela prima ainda ia entendendo do mar sem fundo que lhe entornava a alma.  Entre o tirar e o meter do pão do forno da cozinha, eram mais cinquenta sonhos de um sonho só que a ilha lhe legara.
Depois daquelas férias tinha de subir à torrinha da Escola Industrial, para fazer um piquenique secreto de araçais, apanhados ali no jardim da madrinha Teresa, eram gordinhos como sóis, isto e 'outras coisas, interregno permitido, que ser-se poeta e bicho de conta a tempo inteiro também cansava.
Anos foram vindo e indo e quando se olhou de dentro, já arrastava por esse tempo o seu pequeno manto de ilha perdida... caminhadas lentas, aquelas de ser-se ilhéu.
Era urgente matar a preto no branco, a teia urdida no escondido do seu ser, mas havia um mar e um céu, sempre cheios de promessas (promessas de dólares, vapores, aviões), ela lá tinha o sonho da dissolução daquele cordão umbilical.
Mar que se impunha e dispunha, era paradoxal, amado e odiado.
Nos dias em que fazia Inverno, ia até à janela, projectando no horizonte (sempre água), um rosto manchado pelo céu que no fundo dos olhos tinha grades que aprisionavam as partidas.
Viver na ilha era parar à entrada de um quadro e esperar, partia então, na avenida que interiormente construía colava-se à multidão de gestos de maresia repetida, que ia e vinha como o mar na maré da madrugada.
Com ideias e sonhos concêntricos, sorria por dentro.
Mar revolvido, mar de sargaços, a solidão tinha asas de gaivotas em desassossego, que alegrava e agitava, volitava-lhe nas mãos o seu rasto alongado de silêncio, o despertar fora mar de ternura, o seu cadáver não dará à costa.
Eram dezassete anos e uma ilha navegando-a, seguiu pela estrada do mato, apanhou um Boeing da TAP, oito horas remoendo fantasmas.  Chegou a Congonhas, não pertencia a lugar nenhum, mala na mão e um vulcão no peito rebentando em Chamarritas, Saudades e Olhos pretos e azuis, olhos que tinham ficado.
Chamaram-na de Portuga, mas Portuga não é um ilhéu, passou as passas do canal em dia de S. Vapor.
Nem o modelo dezanove a segura, todas as luas claras se lhe derramavam e a trajectória do apelo acariciava-lhe os sentidos.
Era o tempo de fazer as malas e edificar a ponte mágica, desagregar a distância de sonho retardada, era a busca das amarras, nada dela prolongaria a lonjura entre o sonho e o possível, entre o possível e o real, tempo demais tinha permitido que se construísse dentro dela outra fortaleza.
Surgia-lhe agora o verbo voltar. Voltou, digo, assegurou-se que os caminhos da sua ilha, seriam sempre, caminhos de alguém.
É preciso ter um voltar, é como o sol depois da chuva e levantou voo como asas ao entardecer.  Construiu assim o tempo de ser ave cada vez mais gaivota.
Tinha sido enfeitiçada, enfeitiçou-a a ilha, segredando-lhe histórias, contos de tudo, contos de fios intactos, tentando-a com nuvens de vento, flutuantes, penetrando, numa espera de noites acesas de temporal e bonança.
Não convém que fale do tempo que lhe demorou o espaço do regresso, foi só o tempo de se embrulhar de «cabo a rabo» ... !
Adiante!  Que a terra sempre ilha nova espera!
Seu reino por uma ilha!...
Amassada de verde e azul hortênsia, já ia dormindo nem que fosse alastro, no meio da casa, agora sim, já podiam entretê-la com sopas do Espírito Santo e um prato p’las bordas de sarapatel.
À chegada, concluiu, era o espaço da alegria feito bem-me-quer, o tempo dos seis anos, uma saca de encomendas «from states» e uns sapatos de queda alta para passear no corredor.
Todas as correntes marítimas, bem lá no fundinho, debulhadas em cloreto de sódio, quais foguetes de lágrimas pelo S. João.
Deitou-se de papo para o ar, cheirando a maresia, quase flutuava, guardava em caminhos lentos, o círculo completo à terra mãe.
Que outra mãe tão terra?
Que outra terra tão ilha?

CONTINUA
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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