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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 17 de março de 2019

Do jornalista e redator principal do jornal Record Rui Dias


O Everest segundo Coentrão

O talento, tantas vezes condicionado por saúde e físico, está sustentado em fragilidades emocionais que se revelam tão sensíveis à depressão e ao abatimento como se deslumbram face à iminência de superação e empolgamento. No caso de Fábio Coentrão as lesões tiveram o efeito nefasto de o levar à perda de motivação e, em determinado momento, à pungente expressão pública da convicção de que perdera qualidades para jogar num colosso como o Real Madrid. Foi esse jogador desacreditado, amargo e descrente que chegou a Alvalade, impulsionado pela fé inabalável de uma nova oportunidade; foi esse homem de futuro incerto que decidiu reescalar o Everest para recuperar a autoestima, convicto de que só assim poderia reencontrar-se com a glória. Para isso submeteu-se a todos os riscos, um dos quais envergar a camisola do rival de quem o lançou para o topo. Não menos importante, cruzou-se por fim com o clube do coração.

FC trocou um banco de ouro e a vida cómoda como elemento de um plantel milionário, no qual já não tinha qualquer responsabilidade, por um trabalho de exigência máxima, isto numa altura em que parecia ter-se resignado com a derrota pela descida ao fundo da credibilidade, da desconfiança e da dúvida. Aceitou testar-se a todos os níveis com o conforto de reencontrar Jorge Jesus, o treinador mais importante da carreira, cujo saber lhe permitiu atingir nível internacional numa tarefa que nem sequer dominava. FC tomou decisão de risco, em nome da paixão pelo jogo; do orgulho como profissional de futebol; dos sonhos por cumprir e da irreverência que caracteriza personalidade entre a inocência e a rebeldia, numa existência sempre marcada por adornos sociais. Confirmou afinal os genes de lutador que traz do berço, impelido pela defesa da honra que o seu passado justifica e pela vontade de voltar a ser o que já foi: um dos melhores defesas-esquerdos do Mundo.

Frente ao Famalicão, FC cumpriu pela primeira vez 90 minutos ao serviço do Sporting, sinal de progressos na capacidade de resposta física. Depois de ouvir os antónimos dos elogios que o cobriram na impressionante escalada ao ponto mais alto do reconhecimento planetário, a luz que emana já não corresponde ao crepúsculo de um jogador a caminho dos 30 anos mas sim à esperança de vir a reacender a iluminação brilhante e reconhecida de quem prestigiou como poucos a função que desempenhou no Benfica, no Real Madrid e na Seleção Nacional. Neste processo de recuperação, não podemos esquecer-nos de que, durante duas épocas e meia, discutiu lugar na grande potência merengue, palmo a palmo, com um dos melhores laterais de todos os tempos. Nesse lapso temporal, fez com Marcelo o mesmo que Jorge Valdano diz de Cristiano Ronaldo em relação a Messi nos despiques pela ‘Bola de Ouro’: de cada vez que o brasileiro se distraía ou constipava, era ele o escolhido para a esquerda recuada da defesa. 

No final do jogo para a Taça, feliz por mais um passo no longo e sinuoso percurso que se propôs fazer, afirmou estar a competir contra tudo e todos, universo no qual se deve incluir a ele próprio – o combate também é contra os limites que as circunstâncias lhe criaram. Ao fim de cinco meses de trabalho duro, de muitos avanços mas também de alguns recuos, FC está em fase de aproximação ao futebolista esplendoroso de outros tempos. Falta-lhe ainda continuidade, influência e confiança para se afirmar nos moldes a que nos habituou; mas continua a dar indicações de que, em breve, terá capacidade de resposta para garantir presença assídua e sem limitações de qualquer espécie no Sporting – vai ter de apressar-se, agora que Jonathan estará ausente até fevereiro. À distância de seis meses do final da época, não é de excluir a hipótese de que, até lá, seja capaz de construir um cenário propício à presença no Campeonato do Mundo.


Jonas a viver
longe do jogo

Rui Vitória encontrou e testou com bons resultados a alternativa ao 4x4x2

Jonas é um génio que se expressa aproximando o jogo do golo – aumenta o perigo do seu talento individual e das combinações que promove. No 4x3x3 está mais dependente da equipa do que no 4x4x2. Recua para fazer o enlace mas tem de passar mais tempo entre os defesas. Num dia mau pode até passar hora e meia à espera que a bola chegue em condições, isto é, vivendo longe do jogo. Pode ser um desperdício.


Rio Ave chama
adeptos neutros

Os campeonatos geram, por vezes, fenómenos que são agradáveis surpresas

Frente ao Sp. Braga, o Rio Ave confirmou a excelência do seu futebol. Miguel Cardoso lidera equipa orientada por ideias grandes e valores que, por norma, são exclusivo das potências: posse de bola quase obsessiva e uma intenção atacante presente mesmo quando está sob pressão adversária. Neste clima todos saem valorizados: treinador, jogadores e o clube, que conquista a simpatia dos adeptos neutros.


Com 50 faltas
não se pode jogar

Para prejudicar um jogo, o árbitro não precisa de cometer erros grosseiros

João Capela dirigiu o Benfica-V. Setúbal para a Taça e, no estádio, vistos os lances ao mesmo tempo das decisões que tomou, sem recurso à TV, não cometeu erros escandalosos. Mas a condução do jogo foi trágica, marcada por 50 infrações assinaladas em jogo morno, só com 2 amarelos. Não há verdade desportiva, nem VAR, nem qualquer outra tecnologia que valha, com tanto apito em tão pouco tempo.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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