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domingo, 17 de março de 2019

Da Califórnia de Luciano Cardoso


GARGALHADAS MAL ASSADAS

Adoro saborear uma boa gargalhada. Tenho a garganta assada delas. Tudo por causa da magia criativa do Carnaval da minha terra, uma vez mais riquíssimo em rimas de enredos respirando salutar humor num agradável convite à boa disposição. De forma alguma dispenso esse espírito brincalhão tão característico da nossa mimosa Ilha Lilás. Consola-me a alma e alegra-me o coração. Sabendo que me tenho dado muitíssimo bem com ele ao longo da vida, o meu médico aconselhou-me cultivá-lo amiúde, garantindo-me não haver melhor remédio para vitaminar uma boa saúde em geral.

Perguntava-me o senhor doutor, nado e criado em New Orleans, se eu tinha alguma devoção especial pelo Mardi Gras. Isto é, se celebrava o Entrudo dalgum modo particular. Porque vinha dum lugar com forte tradição carnavalesca, também já tinha visitado o Carnaval do Brasil e lá até ouvira um elogio do da Madeira. Dos Açores, apenas fazia uma pálida ideia que eram nove pequenas ilhas, embora guardasse no céu da boca um delicioso pormenor da maior (São Miguel):  malassadas, que provara por cortesia culinária da mãe dum paciente seu. “Também festejas o teu com malassadas?” Como o tempo não dava para muito e já que estava bem-humorado, “...com filhoses, sr. doutor,” ri-me e, “se me permite corrigi-lo, somos só oito ilhas mais um parque de diversões.” Em inglês, a piada não resulta de imediato e lá tive que lhe explicar a fama festeira da minha Ilha Terceira em relação às demais.

“Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.” O ditado apadrinha a toada animada da nossa conversa de poucos minutos, todavia suficientes para levar o simpático médico a dizer que gostaria imenso de conhecer o meu berço ilhéu – “parece uma terra alegre como a minha”. Quem não conhece por dentro a divertida Ilha de Jesus Cristo, de facto, ao desconhecer a riqueza típica da sua cultura popular, não se pode gabar de conhecer os Açores. Claro que não são oito ilhas e o tal “parque de diversões”, ironia à parte, até pode ser interpretado como um justo elogio aos terceirenses orgulhosos de habitarem um torrão que respira um saudável ar de festa e muito contribui com o seu colorido Carnaval para a identidade cultural açoriana. Carnaval – registe-se – recentemente apontado para poder integrar o Património Cultural Imaterial de Portugal.

Embora na casa dos sessenta, ainda sou do tempo em que esta popular manifestação da nossa briosa cultura era exclusiva do meio rural e contava apenas com os aplausos do bom povo das freguesias. Na geração antes, contava-me meu pai, até nem sempre se subia aos palcos das sociedades. As atuações efetuavam-se ao ar livre, na frescura do terreiro, para regalo das pessoas encantadas com os figurantes exibindo-se ali mesmo sob o seu olhar atento a todos os detalhes. De há meio século para cá, sobretudo com a ajuda da liberdade de expressão e do progresso na escolaridade, frutos da revolução de abril, o nosso Carnaval tem vindo a evoluir a olhos vistos nos seus múltiplos aspetos, com particular evidência na escrita dos enredos e sua respetiva representação em palco. Isto, claro, sem omitir a franca melhoria na indumentária e no instrumental, marcando do ontem para o hoje uma diferença notória na qualidade global do produto artístico.

Tive a oportunidade de vivenciar algumas dessas ligeiras mudanças, pouco antes de imigrar, há coisa de quatro décadas, integrado num airoso bailinho que me marcou a juventude e a vida para sempre. Quatro amigos estudantes, já sem o reles bafo da Censura à espreita, ao escrevermos o nosso gracioso assunto recheado de apetitosa crítica sociopolítica, arrancámos fartos aplausos da nossa boa gente então deliciada pela oportunidade de nos podermos rir de nós mesmos ao rirmo-nos de quem nos “lixa” de cima para baixo, a torto e a direito. Caiu-me no goto e é o que melhor aprecio nos refinados escritos carnavalescos de agora – sem desrespeitarmos nem insultarmos ninguém, sabermos ensaiar e exprimir com sadia ousadia o nosso manifesto desagrado por quem nos trama o dia a dia. 

No fundo, para mim, tudo vai bater no quão indispensável é o rir a gosto nos dias que passam. Motivos não faltam para chorarmos ou apenas nos entristecermos. Alguns rodeiam-nos por força das circunstâncias, outros atacam-nos à falsa fé. Temos que saber reagir e sacudir o que nos arrelia e quem nos chateia. Pessoas abundam à nossa volta sem grande sentido de humor nem vontade de adquiri-lo. Talvez não saibam como ele é baratinho na minha terra de nascença por altura do Carnaval. Só não ri quem não quer. Pena não saberem o que estão a perder.

Perco o juízo por filhoses, mesmo que venham com sabor a malassadas. Não importa. Interessa-me sim é nunca perder este meu formidável apetite por umas saborosas gargalhadas.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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