Quando era pequeno sonhava ter muitas profissões e outras tantas tarefas. Num curto espaço de tempo, mudava de ideias.
Talvez pela vizinhança com o quartel da PsP, ambicionei ser policia, para ser sinaleiro na Praça Velha, Rua da Sé ou Alto das Covas; para ser campeão de multas como alguns fazem ou ser chefe, com pinguelim, como aquele que durante umas festas Sanjoaninas de cuja comissão fiz parte,levou o meu companheiro de comissão Zeca Berbereia para a esquadra, por face a face, de cara bem encostadinha ao dito chefe, lhe ter dito: "tenho-te uma sede que nem imaginas..." Tudo porque a Comissão tentou entrar no Campo de Jogos de Angra para assistir a um jogo de futebol inter seleccções açorianas, que fazia parte das Festas, e como não tinhamos bilhete, não entrámos. A nossa insistência levou à intervenção da Psp e ao episódio que culminou com a ida em peso da comissão à Policia, em defesa do Zeca, que em poucos instantes foi devolvido à liberdade. O tal nem sechefe, dizem, era uma grande "peça", tipo queijo do Pico falsificado, que os subordinados detestavam.
Também pensei ser bombeiro porque me fascinavam as viaturas do quartel na Praça Velha, onde hoje é o Hotel de Angra. Também pensei trabalhar na fábrica do Sr Frederico, para beber uns pirolitos de borla. Então quando apareceu o sumo de ananás, falano Caminho Novo de São Pedro, a rua da porta de entrada...
Imaginei-me jogador de futebol para arranjar emprego, quando eu morava para os automóveis para o Campo de Jogos de Angra, de terra bem batida e linhas de cal postas pela maquineta do António Bolha. A meio do Caminho Novo ficava e fica a Canada do Sarilho, onde moraram as 2 malaguetas, mãe e filha, que ao passarem na rua, eu, dentro de casa,reconhecia as altas vozes ao longe. Uma linguagem clara como água... Mulheres que nunca foram compreendidas...
A minha aspiração de ser relatador de futebol, tendo começado com um búzio, à janela de casa, como já contei em texto anterior. Esta concretizou-se, com um torneio açoriano, aos 18 anos, em São Miguel, onde perdi a virgindade radiofónica desportiva... O Antero Costa, coordenador desportivo do Radio Clube de Angra, uma coisa que significava ZERO. Antero Costa, excelente pessoa, mas explicar alguma coisa a um novato, nada. Entrei para a Tribuna da madeira do Campo de Jogos Marquês Jácome Correia, em Ponta Delgada, para fazer o relato, como se nada fosse. No final do relato regresso à Pensão Cenral, na Rua Machado dos Santos, onde estava hospedado. Na recepção esperava-me um telegrama de alguns colegas da Câmara Municipal de Angra, onde rabalhava na altura e que vinha assinado pelos inesqueciveis António Tarrafeiro e Valdemar Oliveira. O telegrama dizia: "Parabéns pelo relato. Informa se com ou sem correia...". Matutei, desconfiei e fui mostrar a Antero Costa, perguntando-lhe: "Sr Antero, como se chama o campo onde fiz o relato? Jácome Coreia, responde ele. Fiquei deseperado. Então o Sr levou todo o relato a ouvir-me dizer:" daqui do campo de jogos Jácome com Corrreia e nem por uma vez me corrigiu?!... Sabes, eu não ouvi, não percebi.Parece anedota mas não é. Eu levei uma tarde a dizer o nome que me soava no ouvido e que deu asneira grossa. Enfim, outros tempos....
Quando era miudo sonhava ir à 2ª feira da Serreta. Saia da casa dos meus avós maternos, nos Biscoitos, pela fresquinha. Cestas e garrafão de vinho, com regresso já noite cerrada. Um dia em beleza, sem toiros, comida e bebida e aventuras por entre a mata. No tempo em que a Estalagem era uma miragem, tal como hoje.
Em matéria da festa brava, havia mais 2 pontos importantes. A 2ª feira dos Biscoitos, em que as tardes eram quase de tolerância de ponto e eu assistia em casa do meu tio José Fonseca, antes da antiga Farmácia, quase à boca da Canada do Porto. Ao passar o arraial e como recentemente me lembrava o amigo Luís Brum (sim, o tal do Museu Independente dos Biscoitos), lá estava numa das varandas da casa do Sr Fernando Brum, o Sr Ricardo Jorge, anos a fio, um grande aficionado e critico taurino.
Mas para mim, o dia mágico era o Domingo do Porto dos Biscoitos. Na véspera, ao anoitecer, lá ia colocar umas mantas nos calhaus para marcar lugar para a familia no dia seguinte. No domingo, tudo certinho, sem roubos nem vandalismos. Havia a procissão de Santo António e um festival taurino na praça, ao lado da Praça da alegria. À tarde, a tourada à corda, com o maior arraial da Ilha, como ainda hoje acontece, salvo melhor opinião, mas com vários dias de festa, muita chinfrineira e bebedeira, acampamentos e não sei que mais...
Uma das coisas que gostava de ter sido era jornalista. Apenas rabisquei umas linhas mal alinhavadas de futebol. Hoje em dia, quem quer ser candidato a politico ou a eleições, começa a escrever do dia para a noite. Quem quer ver se arranja emprego, começa a falar bem ou mal, conforme o lado de que sopra o vento. Quem tem ajustes de contas do tempo em que andou na politica, também escreve para se "vingar". E alguns a ver o filme... Outros tiram licenciaturas, escrevem qualquer coisa de de repente, qual paraquedistas, aterram no parlamento. Sempre são 2 ordenados e desemprego é coisa que não há nas estatisticas....Outros, já jornalistas, tiram mestrados, doutoramentos e o que mais houver. Ficam capacitados para escrever ou falar de qualquer tema. Há contaminações e pedregulhos do tempo da pré história e outras coisas mal imaginadas que só eles conhecem. Há jornalistas reformados que produzem mais do que quando estavam no activo?!...
Conta-se que há um caso de um jornalista que escreve para jornais, fala na TV, publica livros, comenta, modera, eu sei lá. Uma autêntica enciclopédia viva, humilde servo do poder vigente na altura em que estava no activo. Eu não acredito, mas não sei porque tanto insistem!....
Lembro-me do Adro da Sé, da barbearia do Joel e dos doces da Pastelaria Atanásio, no tempo do coma agora e pague depois...
Lembro-me do claustro do Liceu, onde aprendi a marchar e a dar passos à esquerda e à direita, na Mocidade Portuguesa, onde tive de ter uma farda e comparecer nas tardes de sábado para não perder por faltas. Chueguei a chefe de esquina.
Lembro-me da sala de canto coral, grande e onde o Dr Edmundo, que dirigia o famoso coro do Seminário de Angra, foi meu professor. A minha voz é que parecia de cana rachada e por isso para o lado dos desafinados...
Lembro-me do Sr Martins da cantina e da sala de desenho, onde o arquitteto, professor de desenho, fumava de boquilha durante as aulas. Num dia, em pintura de aguarela, pegou no meu desenho e aproximou a boquilha para secar mais depressa, segundo ele. E secou. Até furou o que foi um descanso para mim,pois a obra não merecia outra coisa.
Também pensei oferecer-me para a tropa, mas desisti ao pensar que as muralhas da fortaleza estavam cheias de monda e a precisar de reparações, tal como hoje acontece... Será que não há gente no quartel, sem fazer nada, e que devidamente enquadrados e orientados,lavem a cara à fortaleza de São João Batista? Eles são pagos pelo erário público. Para quê, não sei.
Já que estamos numa conversa atramoçada, recordei-me do homem que morava na Canada do Porto dos Biscoitos e que na minha infância, de saca de lona às costas, com tremoços, que levava para os lados do abismo. Saca bem amarrada e presa com corda ao calhau. Ficavam de molho umou dois dias. Depois lá ia ele descansadamente buscar os tremoços, pois já sabia que não haveria roubos nem nada que se parecesse. Ficavam uma delicia. Vai uma fresca?
Até à próxima.

Sem comentários:
Enviar um comentário