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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Da poetisa-escritora Graziela Veiga - O DIA QUE A MINHA MÃE TOMOU A DECISÃO CERTA!


O DIA QUE A MINHA MÃE TOMOU A DECISÃO CERTA!

Foi no ano de 1973, a minha mãe tinha quarenta anos e o meu irmão mais novo, dois anos. 

A minha mãe nunca foi uma mulher de andar em festas, por dois motivos, pelo facto da minha avó não deixar, quando era solteira, e depois de casada, devido aos filhos e uma tia e madrinha do Baptismo de meu pai que viveu connosco até morrer. 

No entanto, havia uma festa que lhe era querida, talvez por ser a única que ia quando solteira, acompanhada da mãe, a tourada de praça no Pico da Serreta. E apesar das poucas vezes que foi, gostava de subir o pico e arranjar um lugar, a fim de que pudesse ver os touros lá no alto. Naquela altura, era sem dúvida um dia festivo e de muita alegria, sobretudo para as pessoas nascidas na Serreta, como era o caso da minha mãe. 

O dia começava na Mata da Serreta e acabava no Pico, com a célebre corrida de touros, pelas dezasseis horas. 

Então, no ano supramencionado, a minha mãe já estava um bocadinho mais livre, visto nós andarmos aí pelas idades dos catorze, o mais velho e o mais novo, dois, ficando os outros quatro no meio, em relação às idades. 

No dia anterior à tourada do Pico, tinha a minha mãe combinado com o meu pai de ir ter com ele, da parte da tarde, levando o meu irmão mais novo consigo. Não sairiam juntos de casa, uma vez que o meu pai gostava de ir cedo com os seus amigos, como era hábito. 

Assim, como o combinado, a minha mãe apanhou a carreira das catorze horas e lá se dirigiu para a Serreta, tendo saído mesmo no arraial. Já a canada do Pico se encontrava repleta de pessoas, mas como a minha mãe gostava de ir para o Pico, meteu-se por lá abaixo em direcção a uma tasca, pois tinha avistado o meu pai. Então, pediu a um rapaz lá das Doze Ribeiras que fizesse o favor de o chamar. Ele assim fez. 

- Ó senhor Noé, a senhora Inês está a chamá-lo, ela está ali. 
O meu pai olha para trás e avista a minha mãe, Mas ao avistá-la, meteu uma cara de total indiferença e disse-lhe. 

- O que é? 

A minha mãe nem deu resposta. Agarrou no meu irmão, e logo subiu a canada num instante, ao mesmo tempo que a carreira ia a passar em direcção a Angra. Então, acenou ao condutor, que fez o favor de parar e num instante já estava em casa. 

Quando o meu pai chegou a casa, vira-se para a minha mãe e diz-lhe. 
- Como é? Não quiseste ficar para os touros? Eu andei à tua procura e nunca mais te vi...

Diz a minha mãe. 

- Ó Noé! O que é que a gente tinha combinado? Que eu iria ter contigo e que íamos para o Pico ver os touros. Eu cheguei lá, mandei-te chamar e tu mostraste-me uma cara de quem não me conhecia de lado nenhum. Então eu apanhei a carreira de regresso e vim para casa. E digo-te mais. A partir de hoje, quando quiseres ir aos touros, vais lá com os teus amigos, e eu quando quiser e me apetecer, vou. Não combino mais encontrar-me contigo. Cada um segue o seu caminho. Eu sei muito bem vir ter a casa sozinha. E tu também. Assim, escusa de andarmos a combinar alguma coisa para não dar certo. 

E assim foi. A partir desse dia, a minha mãe sempre que quis ir aos touros à Serreta, tomava conta de si e do meu irmão mais novo, enquanto ele foi pequeno. E quando me apetecia, também ia na sua companhia, o que recordo com muita saudade. O único problema é que tinha que acompanhar a minha mãe para o Pico, e eu tinha receio. Por isso, a minha mãe chegou a ficar numa cada à beira da canada do Pico, pessoas amigas, por causa de mim. Mas como eu sabia da vontade dela, de vez em quando, também ia para o Pico. 

Pena tenho eu de não ter ido mais vezes com a minha mãe, mas não adivinhava que ela tivesse tão pouco tempo de vida. 

E a partir desse dia, a minha mãe ganhou alguma independência em relação ao meu pai. O melhor é que nunca houve qualquer ciúme de parte a parte, pois havia inteira confiança um no outro.

20-05-2019
Graziela Rocha Veiga
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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