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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Da escritora Graziela Veiga - MATA-RATOS


MATA-RATOS

Hoje, lembrei-me desta figura típica da Ilha Terceira, o mata-ratos. Era nada mais, nada menos, um homem que se deslocava pelas freguesias e instalava-se na casa das pessoas, pelo menos, durante o dia, a fim de matar os ratos que por lá houvesse. 

Sinceramente, não é do meu tempo. No entanto, através de testemunhos, neste caso, os meus pais, vou contar uma história que se passou com o meu avô paterno. 

Tal como as outras pessoas, naquela época, era comum haver ratos em grandes quantidades, pois as novidades da terra, as condições de higiene e tudo mais, proporcionavam a proliferação destes roedores. Felizmente, naquela altura, não se falava na leptospirose, e penso que, decerto, não devia existir, dada a facilidade que se mexia nas coisas, por atafonas e palheiros, sem qualquer protecção, apesar de não descurar a hipótese de alguém ter falecido infectado. Só que não se veio a provar. 

Contaram-me os meus pais, sobre um senhor que se deslocava lá para a zona Oeste da Ilha, nomeadamente, Doze Ribeiras, onde, por vezes, pedia guarida, dada a hora avançada, anoitecer e ser demasiado tarde para regressar ao seu aposento. 

Em casa dos meus avós, sempre que havia ratos, solicitavam ao tio Leal para que lá fosse matá-los. Nunca se soube mais do que este nome, nem tão pouco de onde provinha. O tio Leal, mata-ratos, recebia uma determinada quantia, (com imensa pena, não sei precisar quanto) por cada rato que matava, mediante a apresentação do rabo que, teria de ser cortado e mostrado aos contratadores. 

Sei, por aquilo que me contavam, que era uma pessoa pobre, portanto, vivia com alguma dificuldade, (estado comum naquela época), por isso, recorriam, com alguma frequência a pedidos de ajuda. No caso do meu avô que tinha comércio, era comum, o tio Leal almoçar lá no estabelecimento. 

Então, certo dia, ao anoitecer, o tio Leal já tinha cumprido o seu dever e estava demasiado cansado para voltar para casa. Teve a ideia de pedir ao meu avô para pernoitar no palheiro até amanhecer. Bem contra a vontade da minha avó, lá o meu avô deixou, pois era condoído para com os mais necessitados e só se não pudesse servir é que não satisfazia um pedido de ajuda. 

Lá o tio Leal passou a noite no palheiro, ou não. 

Quando amanheceu, o meu avô, um homem madrugador, foi ao palheiro, a fim de saber o estado do homem. Ficou pasmo. Já não havia homem. Apenas folha do milho que estava pendurado na burra e umas cuecas todas sujas. 

O tio Leal tinha passado parte da noite, senão toda, a desfolhar milho e, provavelmente, para vender ou trocar por algum bem que necessitasse. 

Quando a minha avó soube do sucedido, cansou-se de barafustar com o meu avô, pois ela não achou graça àquela ideia do tio Leal pernoitar no palheiro. 

O meu avô ficou aborrecido com aquela situação, mas não tão calejado que não desse mais ajuda a quem precisasse. Mesmo, depois do tio Leal, ainda apanhou mais alguns calotes, devido ao seu feitio, tudo que lhe solicitavam, ele cedia. Acreditava nas pessoas, e tinha a convicção de que não o iriam enganar. Pois, foi enganado e, muitas vezes, mas sempre ajudou os outros. E era estimado por muitos que, além de ficarem gratos, ofereciam-,se para algum serviço que ele precisasse. Era um homem de bom coração.

10-07-2019
Graziela Rocha Veiga

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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