BOAS LEMBRANÇAS...
Hoje, não me apetece ficar em casa. Acordei cedo, como sempre, abri a janela, e vejo este dia radioso, cheio de sol, com sabor a Primavera. E veio-me à memória a minha freguesia, Doze Ribeiras, em tempo de Páscoa.
Por esta altura, estaria a minha mãe a cozer os folares. A alcatra para o Dia de Páscoa, ficaria para o sábado. Tudo feito em forno de lenha. Ainda tenho presente o aroma que deixava na casa, o quentinho do forno, o estalar da lenha, e a alegria por festejarmos todos juntos, estes dias...
Naquele tempo, não havia coelhinhos de chocolate, mas havia confeitos e amêndoas, os mais saborosos que eu já comi.
Lembro-me dos balamentos feitos com os colegas e amigos da Escola. Aquela ansiedade de ser o primeiro a dar os balamentos, a fim de receber amêndoas antes de irmos para as férias da Páscoa. Alguns, só davam depois. Mas eram sempre bem vindas. Outros, nunca chegavam a dar, pois não tinham. Mas eram desculpados. E ainda havia as amêndoas oferecidas pelos tios, padrinhos, pois era quase obrigação, oferecerem aos afilhados, amêndoas e confeitos pela Páscoa. De forma que, era um tal empanturrar-se de açúcar. Mas não havia o perigo que há hoje, nós circulávamos, nunca parávamos.
Naquela altura, a nossa preocupação era não ter preocupação, apenas brincar, nada mais. Todo o ambiente era convidativo a que nós nos levantássemos cedo, pois o barulho das vacas no curral, o grunhir dos porcos, o cacarejar das galinhas, o cantar do galo, o barulho dos carros de bois pelo caminho, as carroças, o moleiro, o amolador de tesouras, a mulher dos chapéus, o homem das vassouras, o vendedor de peixe às costas, de São Mateus, o tio dos ferrolhos, o carro da Baratinha com a sua música estridente, os fornecedores de mercearia para o meu tio Nelson, o arrastar das galochas das senhoras no caminho, tanta coisa... era impossível que nos mantivéssemos a dormir. E depois a vida no campo, tem mais encanto, é mais convidativo a que andemos cedo, pois há muito que explorar, que ver, sem pressa de chegar a casa. Até passava a vontade de comer. Se a minha mãe não nos chamasse, nós nunca tínhamos fome. A abstracção era tanta, que pulávamos as refeições.
No tempo da minha infância, na minha freguesia natal, havia movimento de pessoas, havia barulho, impossível estarmos em silêncio. E era esse movimento de pessoas, animais e tudo mais, que dava vida à freguesia, a razão de passarmos uma infância alegre e feliz, pois não nos faltava amigos e brincadeira.
Se não havia telemóveis, televisão, telefone, etc...nem dei por isso. Não me fizeram falta. A comunicação era feita cara a cara, muito mais personalizada. E nunca ficamos de nos encontrar que não o fizéssemos, não falhava. A palavra dada tinha impacto, mesmo nas crianças. Já nos habituávamos a ver os nossos pais e os adultos, a comprometerem-se perante os factos, e assim, para nós, era o mais óbvio. As pessoas eram mais honestas, disso não tenho dúvida. Não havia a competição que há hoje, esta loucura de querer ter tudo, açambarcamento de bens. Basta pensar na infância que tive, para ver que nada dos bens actuais me fizeram falta. Nada mais certo do que o ditado - a necessidade aguça o engenho. Não me lembro de perguntar à minha mãe, o que iria fazer. Nós tínhamos a capacidade de sonhar, vivíamos os sonhos. Se há noite, magicássemos que no outro dia, iríamos ter uma aventura, ela acontecia. Eram pequenas aventuras, bastava irmos ao cimo da rocha, por exemplo, ou ao mato, mas para nós, eram grandes aventuras. Só o prazer de vermos esses sonhos realizados, era o bastante para nos sentirmos felizes.
Cantarei eternamente todas as aventuras vividas na minha infância. Fizeram a pessoa que sou hoje. Deram-me a capacidade de sonhar, não com megalomanias, mas com as coisas simples, o meio que nos rodeia, que está na natureza, o que nos faz mais felizes. Há quem nunca chegue a descobrir. Nem sabe o que perde...
09.04-2020
Graziela Veiga

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