
Uma voz que não se esquece
Recuando no tempo, podemos dizer, seguramente, que o Rádio Clube de Angra viveu a expensas da carolice de muitos e, também, do amor que tinham por aquela casa. Inúmeras vozes que deram corpo e alma à nossa querida estação de rádio, por onde também passei por períodos alternados, ora como
colaborador ora como editor desportivo na companhia de outros colegas, nomeadamente Norberto Barcelos e António Nanques, numa fase em que formamos um tridente de peso nos anos de 1981-1982.
Quando ainda não havia televisão (o que só foi realidade a partir de 1975), o Rádio Clube de Angra era a nossa companhia diária. Jovens e adultos se ligavam no AM da então mais popular e escutada rádio dos Açores.
Evidentemente que no RCA existiam vozes que agradavam os ouvintes, pela forma como se expressavam, podendo citar, entre outros, o falecido João Ávila (de quem também já escrevi), Durvalino Sarmento e Lucinda Barcelos, que foi minha colega na Junta Geral e foi uma voz que, amiudadamente, esteve ligada aos meus programas desportivos.
Vozes e mais vozes. Nós os jovens naquela altura discutíamos muito quem era o melhor João Ávila ou Durvalino Sarmento? Obviamente que as opiniões se dividiam, mas era sumamente interessante essa forma de elegar a melhor voz. Para mim, que tive posteriormente o privilégio de os encontrar no RCA quando lá entrei pela primeira vez como colaborador, não existia o melhor, mas sim, pessoalmente, os melhores.
Durvalino Sarmento, homem longilíneo, benfiquista dos sete costados, trabalhou muitos anos como balconista na firma de José Gonçalves Leonardo. E quantas vezes o vi subir a Rua do Paução (penso que é este o nome) para a sua residência sita na Rua de Cima de Santa Luzia, isto também num período em que eu anda na Rua do Paução com um namorico. Muito jovem mesmo.
O nosso amigo Durvalino Sarmento, à semelhança de muitos nossos amigos e conhecidos, decidiu emigrar para a Califórnia, onde permaneceu durante muitos anos. Hoje já se encontra na ilha Terceira na sua casa no Porto Martins, lugar privilegiado, nomeadamente na época estival.
Amigo do amigo, Durvalino Sarmento, dentro das suas possibilidades, deu a mão a muitos conterrâneos na Califórnia, um deles o comum amigo João Bendito naquele que foi um dos seus primeiros empregos que teve na Califórnia. Faziam latas de alumínio para Seven UP e Cocacola numa grande fábrica e onde o Durvalino Sarmento era muito conceituado. Não me admira nada que as bebidas preferidas do Durvalino sejam essas citadas anteriormente, ou seja, a Seven UP e a Cocacola.
E num gesto que para mim se revelou simbólico, foi interessante de se ver a presença do Durvalino no lançamento do livro A LOJA DO TIO BAILHÃO.
E como gostei de apreciar as fotos que vieram à estampa sobre este evento e em que, nume delas, o Durvalino recebe um livro das mãos do Jorge Bendito e ladeado pelo Dr. Carlos Enes, um historiador de reconhecidos méritos e colunista em vários jornais, entre os quais o extinto A União por onde também passei como colunista, após tantos anos de coordenador e editor desportivo.
Durvalino Sarmento um forte abraço e curte bem a pacatez do Porto Martins com esse mar de águas limpidas e um sol maravilhoso. Quando falo dos cantinhos paradisíacos da ilha Terceira, bate sempre a saudade. E este do Porto Martins foi mais um.
Do jornal A União - E se ele fosse vivo
Por todos os clubes da nossa terra, Angra, Praia da Vitória, Porto Judeu, Ribeirinha, Vila Nova, Lajes, São Mateus, passaram figuras que, pelo seu amor clubístico, fizeram história, maior incidência quando estava bem acesa a rivalidade entre os clubes mais cotados – Angrense – Lusitânia, Praiense – União, “Os Leões” – Barreiro, Vilanovense – Lajense, Boavista – Marítimos -, ou seja, no tempo do amor à camisola. Épocas em que havia o prazer de ser dirigente. E tenho visto fotos no facebook que dizem bem do entusiasmo que naquele tempo se vivia. Bancada literalmente cheia, idem peão, idem o cantinho que era conhecido pelo “canto da pulga”. Dos tempos em que as claques do Lusitânia e do Angrense acenavam com lenços brancos, óbvio quando um deles perdia. Depois, e isto mais em relação ao Angrense, os lusitanistas faziam eco com esta frase: lá vai a procissão das velas. Do tempo em que os seminaristas ocupavam as duas zonas paralelas aos camarotes, idem os militares, enfim, o tempo em que o nosso futebol transportava para o espectador toda uma alegria que não parava, atendendo a que, durante toda a semana, se falava das peripécias do jogo. Depois, no domingo seguinte, seguia-se o próximo e assim sucessivamente. Hoje, por exemplo, existe um pouco dessa essência no Café Aliança, habitual paradeiro de jogadores mais antigos que, entre si, vão discutindo quem é o melhor, quem foi beneficiado pelo árbitro, quem deve mais dinheiro, enfim, os condimentos necessários para umas risadas ou para aborrecer mesmo o parceiro com doses de “doença aguda”.
E se ele fosse vivo? É verdade, se ele fosse vivo o que podia acontecer? Ficava perplexo como tantos outros. Estou a falar de João Lopes, um homem que muito trabalhou para o Lusitânia. E sabe-se que todos os seus estabelecimentos foram baptizados por Lusitânia. Adega e Mercearia. E só faltou colocar o nome no filho, que em vez de se chamar Carlos Arruda, passaria a Carlos Lusitânia. Mas ele, o pai, foi sempre conhecido por João da Adega Lusitânia e posteriormente João da Mercearia Lusitânia. Penso que poucos o chamavam por João dos Serviços Municipalizados.
Ai se o João fosse vivo, e confrontado com a actual situação do Lusitânia, o coração não ia suster o impacto desta enorme hecatombe em que os verdes submergiram. E quem afundou a esta hora está-se nas tintas, como sói dizer-se.

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