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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Do jornalista João Rocha - O toiro Ermelindo



O toiro Ermelindo

 A minha amiga Helena tem uma mão cheia de gatos. Deu nomes de gente a todos os felinos: Martinho, Carlota, Jacinta, Lúcia e Francisca.
Gosto particularmente do esmerado trato com os ditos animais de estimação. Seguirei a tendência e vou chamar Ermelindo (números eram na tropa) ao toiro
que estou prestes a adotar.

Os humanos têm de perder a mania de que são…humanos e superiores aos restantes animais privados de raciocínio. Já é repetitiva e causa mau ambiente no planeta. 
Nestas coisas temos que jogar com honestidade intelectual. Com a adoção do Ermelindo, provarei a teoria de que qualquer toiro é um ser perfeitamente social e capaz de aprender regras de etiqueta comportamental.
Os bichos dão um certo ar de agressividade por um motivo deveras simples: passam muito tempo no mato, onde nem há um café e muito menos TV Cabo. 
Já estou a imaginar passear o Ermelindo pela marina de Angra e acalmar uma mãe mais assustada quando a criança quiser fazer-lhe festinhas. Acabou-se “o meu cão não morde”, prevalecerá “o meu toiro não marra”.
Doravante, e os aficionados podem farpear-me à vontade, imolarei pelo fogo (preciso é do isqueiro emprestado) e boicotarei qualquer evento taurino.
Tenham santa paciência e azar de varas. É desagradável ir para a arena lidar com bandarilheiros e matadores de toiros.
Por exemplo, em termos pessoais, não estaria inclinado a fazer uma entrevista com um matador de jornalistas.

Terei também extremo cuidado com a alimentação do Ermelindo (enquanto for um toiro de colo se calhar perco a cabeça e recorro ao janota diminutivo Ermelindozinho). Nem preciso ouvir o veterinário para saber que nada de carne.

Além de indigesto, seria problemático para o Ermelindo trincar algum parente estendido no hambúrguer.
Para saciar o estômago, essencialmente legumes e muita fruta, sem esquecer os suplementos de soja.
Estou ainda tentado a liderar um movimento da sociedade civil e militares reformados com vista à criação de hotéis para toiros, como, aliás, existe em relação aos bobis e tarecos.


Quero desfrutar plenamente da companhia do Ermelindo. Levá-lo ao cinema, fazer um cruzeiro, ver futebol, arranjar-lhe uma cadeira própria para se instalar no carro e, caso o Inverno seja rigoroso, comprar um casaquinho de mala obstando constipações.

Já me esquecia. Faço questão de o acompanhar a um espetáculo de karaoke. O Ermelindo vibrará ao cantar e dançar o sucesso musical “Ai se eu te pego”.

Com este nobre gesto de adoção (que poderia muito bem ser compensado através de benefícios fiscais), estarei a cumprir com a obrigação de ajudar a construir um mundo mais harmonioso e ecológico.

Só lastimo não acabar com a necessidade das paredes altas. Depois explico a razão ao Ermelindo.







Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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