O toiro Ermelindo
A minha amiga Helena tem uma mão cheia de
gatos. Deu nomes de gente a todos os felinos: Martinho, Carlota, Jacinta, Lúcia
e Francisca.
Gosto particularmente do esmerado trato com os
ditos animais de estimação. Seguirei a tendência e vou chamar Ermelindo (números
eram na tropa) ao toiro
que estou prestes a adotar.
Os humanos têm de perder a mania de que
são…humanos e superiores aos restantes animais privados de raciocínio. Já é
repetitiva e causa mau ambiente no planeta.
Nestas coisas temos que jogar com honestidade
intelectual. Com a adoção do Ermelindo, provarei a teoria de que qualquer toiro
é um ser perfeitamente social e capaz de aprender regras de etiqueta
comportamental.
Os bichos dão um certo ar de agressividade por
um motivo deveras simples: passam muito tempo no mato, onde nem há um café e
muito menos TV Cabo.
Já estou a imaginar passear o Ermelindo pela
marina de Angra e acalmar uma mãe mais assustada quando a criança quiser
fazer-lhe festinhas. Acabou-se “o meu cão não morde”, prevalecerá “o meu toiro
não marra”.
Doravante, e os aficionados podem farpear-me à
vontade, imolarei pelo fogo (preciso é do isqueiro emprestado) e boicotarei
qualquer evento taurino.
Tenham santa paciência e azar de varas. É
desagradável ir para a arena lidar com bandarilheiros e matadores de toiros.
Por exemplo, em termos pessoais, não estaria inclinado a fazer
uma entrevista com um matador de jornalistas.
Terei também extremo cuidado com a alimentação do Ermelindo (enquanto for um
toiro de colo se calhar perco a cabeça e recorro ao janota diminutivo Ermelindozinho).
Nem preciso ouvir o veterinário para saber que nada de carne.
Além de indigesto, seria problemático para o Ermelindo trincar algum parente
estendido no hambúrguer.
Para saciar o estômago, essencialmente legumes e muita fruta, sem esquecer os suplementos de soja.
Estou ainda tentado a liderar um movimento da sociedade civil e militares reformados com vista à criação de hotéis para toiros, como, aliás, existe em relação aos bobis e tarecos.
Para saciar o estômago, essencialmente legumes e muita fruta, sem esquecer os suplementos de soja.
Estou ainda tentado a liderar um movimento da sociedade civil e militares reformados com vista à criação de hotéis para toiros, como, aliás, existe em relação aos bobis e tarecos.
Quero desfrutar plenamente da companhia do Ermelindo. Levá-lo ao cinema, fazer
um cruzeiro, ver futebol, arranjar-lhe uma cadeira própria para se instalar no
carro e, caso o Inverno seja rigoroso, comprar um casaquinho de mala obstando
constipações.
Já me esquecia. Faço questão de o acompanhar a um espetáculo de karaoke. O
Ermelindo vibrará ao cantar e dançar o sucesso musical “Ai se eu te pego”.
Com este nobre gesto de adoção (que poderia muito bem ser compensado através de
benefícios fiscais), estarei a cumprir com a obrigação de ajudar a construir um
mundo mais harmonioso e ecológico.
Só lastimo não acabar com a necessidade das paredes altas. Depois explico a
razão ao Ermelindo.


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