O acrescentador de vidas
e bajulador (só) do tempo
Augusto Gomes faleceu aos 82 anos, corria o
mês de novembro de 2003. Respeitável idade, que pode ser sinónima de uma vida
preenchida. No caso concreto, é muito mais do que uma vida. Augusto Gomes era
(e será sempre) um acrescentador de vidas nato. Através da escrita, com os seus
livros a servir de exemplo paradigmático, mas também pela oralidade, dando
lustro à sua faceta de brilhante contador de histórias.
Todavia, da pena e boca de Augusto Gomes, não
saíam banalidades. Eram histórias reais, com o cunho de vivências pessoais que
não podem passar à margem da história. Recorria à sua brilhante memória para
ilustrar, com máxima perfeição, o que merece ser contado. Memórias de menino, de
passagens por África em compromissos militares, de amigos, tradições, costumes,
gastronomia e, muito naturalmente, de pessoas.
Quem o lê ou o ouvia, facilmente consegue
chegar a paredes-meias com a história que Augusto Gomes queria partilhar com o
resto do mundo.
Eram filosofias da humanidade que só podiam
ser interpretadas por "Filósofos da Rua". A Maria Inácia, a tia Rosa,
o Joaquim das Horas, o João dos Ovos e tantos outros de um tempo que, ao ser
relatado por Augusto Gomes, parecia ser sempre presente.
Sem dificuldades e com os mil cuidados que uma
mãe presta a um filho de colo, era capaz de tocar "A Alma da Nossa
Gente".
A nós, leitores e eventualmente acompanhantes
de cavaqueiras, bastava seguir a passadeira lançada aos sentidos para ficarmos
a par de toda(s) a(s) história(s). Quase que víamos as pessoas, os sítios, e
sentíamos os cheiros e paladares únicos da gastronomia açoriana que Augusto
Gomes bem tentou (e conseguiu!!!) tirar das panelas das memórias esquecidas.
Augusto Gomes era um autêntico bajulador do
tempo. Fazia do "compressor de história" um aliado no bom trato, e
quem sabe no retoque, das suas personagens que parecem, ainda hoje, à simples
distância de um cumprimento.
Mas, para que fique claro, Augusto Gomes só
bajulava o tempo e as coisas que o povo unicamente pode dar.
O poder instituído não lhe cheirava lá muito
bem. Os seus livros, que à nossa escala quase se poderiam designar por
best-sellers, esgotavam rapidamente, obrigando à feitura de novas publicações.
Mesmo assim, a cultura politizada nem sempre
reconhecia, com o devido mérito, as suas obras. Também não faz mal. Augusto
Gomes não tinha tempo para politiquices, nem para rancores. Até escreveu o
livro "Perdoe pelo Amor de Deus"...


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