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terça-feira, 11 de abril de 2017

Do jornalista João Rocha







O acrescentador de vidas


e bajulador (só) do tempo






                                                           




Augusto Gomes faleceu aos 82 anos, corria o mês de novembro de 2003. Respeitável idade, que pode ser sinónima de uma vida preenchida. No caso concreto, é muito mais do que uma vida. Augusto Gomes era (e será sempre) um acrescentador de vidas nato. Através da escrita, com os seus livros a servir de exemplo paradigmático, mas também pela oralidade, dando lustro à sua faceta de brilhante contador de histórias.



Todavia, da pena e boca de Augusto Gomes, não saíam banalidades. Eram histórias reais, com o cunho de vivências pessoais que não podem passar à margem da história. Recorria à sua brilhante memória para ilustrar, com máxima perfeição, o que merece ser contado. Memórias de menino, de passagens por África em compromissos militares, de amigos, tradições, costumes, gastronomia e, muito naturalmente, de pessoas.


Quem o lê ou o ouvia, facilmente consegue chegar a paredes-meias com a história que Augusto Gomes queria partilhar com o resto do mundo.


Eram filosofias da humanidade que só podiam ser interpretadas por "Filósofos da Rua". A Maria Inácia, a tia Rosa, o Joaquim das Horas, o João dos Ovos e tantos outros de um tempo que, ao ser relatado por Augusto Gomes, parecia ser sempre presente.


Sem dificuldades e com os mil cuidados que uma mãe presta a um filho de colo, era capaz de tocar "A Alma da Nossa Gente".


A nós, leitores e eventualmente acompanhantes de cavaqueiras, bastava seguir a passadeira lançada aos sentidos para ficarmos a par de toda(s) a(s) história(s). Quase que víamos as pessoas, os sítios, e sentíamos os cheiros e paladares únicos da gastronomia açoriana que Augusto Gomes bem tentou (e conseguiu!!!) tirar das panelas das memórias esquecidas.


Augusto Gomes era um autêntico bajulador do tempo. Fazia do "compressor de história" um aliado no bom trato, e quem sabe no retoque, das suas personagens que parecem, ainda hoje, à simples distância de um cumprimento.


Mas, para que fique claro, Augusto Gomes só bajulava o tempo e as coisas que o povo unicamente pode dar.


O poder instituído não lhe cheirava lá muito bem. Os seus livros, que à nossa escala quase se poderiam designar por best-sellers, esgotavam rapidamente, obrigando à feitura de novas publicações.


Mesmo assim, a cultura politizada nem sempre reconhecia, com o devido mérito, as suas obras. Também não faz mal. Augusto Gomes não tinha tempo para politiquices, nem para rancores. Até escreveu o livro "Perdoe pelo Amor de Deus"...


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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