Opinar no Facebook
depois da tasca
Todos já caímos na tentação de
opinar por opinar, ou seja, para não estar calado. Há uns anitos o espaço
privilegiado seria o balcão ou a mesa do café/tasca.
Um assunto vinha à baila e, imediatamente, arriscávamos uma consideração
traduzida grosso modo no sempre eloquente “acho que”.
E, muitas vezes, o “acho que” era antecedido doutra pérola do pensamento: “não
percebo nada do assunto, mas…”.
E as “doutas” tiradas (mais cerveja houvesse…) serviam para desvendar todos os
segredos do mundo e arredores.
Todavia, em boa verdade, os raciocínios debitados nas cavaqueiras com amigos e
conhecidos acabavam por não ter grandes repercussões até porque eram facilmente
apagados pela ressaca.
Com a internet, e a proliferação das redes sociais, a coisa já ganhou outras
proporções bem mais gravosas.
Hoje, por exemplo, quem não está no Facebook parece que vive em Marte.
No mural do face cabe tudo o que é bom e ruim. O utilizador crónico não tira o
olho do ecrã do computador para não perder nenhuma novidade.
As festas, os desastres, os vídeos, as notícias cor-de-rosa e mais negras, os
likes, as fotos da vizinha em biquíni, as análises da economia, as biqueiradas
no futebol, as partilhas dos enredos/mexericos e por aí fora sem nunca mais
parar.
Para os praticantes assíduos do “acho que” o reduto virtual supera, de longe, o
paraíso. Comentar, e poder ainda fazer o mesmo sobre os comentários alheios,
equivale a uma tentação dos diabos.
As regras (sejam legais, de senso ou educação) praticamente não existem. É como
jogar futebol sem árbitro, onde a canela do adversário vale tanto como a bola.
Somos especialistas (mesmo sem o
curso acelerado do Relvas) em combates a incêndios florestais,
assaltos a material bélico ou na política Trumpiana.
É tão agradável chamar gatuno, com as letras todas, ao governante, reclamar
cadeia para os banqueiros, bombardear o selecionador nacional, questionar a
bravura de um toiro e discordar das regras de trânsito, sem falar dos vídeos em
que as boazonas (ou bonzões, em defesa da igualdade de género) aparecem em
coiro.
E, no final, há ainda a fascinante
hipótese de se acrescentar Lol.
O grande problema é que o universo do Facebook não se limita às paredes de uma
tasca. As ressacas são outras e “acho que” só dão corda a idiotices, malcriação
e afins.
Mas não percebo nada do assunto…
joaorochagenio@hotmail.com


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