VALETE
“Vou ter que despedi-lo, Simão.
“Sim, dr. Pinto.”
“Não posso mais pagar um ‘valet
de chambre’. Ninguém mais pode, hoje em dia. Eu acho que era o último
brasileiro que ainda tinha ‘valet de chambre’. Agora acabou. Não tenho mais
dinheiro para nada. Minhas empresas faliram todas. Não tenho mais crédito em
lugar algum e já vendi tudo que tinha. Não tenho mais nem o dinheiro da cômoda,
que estava guardando para uma emergência. A emergência chegou e o dinheiro da
cômoda sumiu.”
“Eu sei, dr. Pinto.”
“Como você sabe, Simão?”
“Fui eu que peguei o dinheiro da
cômoda, dr. Pinto.”
“Você?!”
“Tenho roubado do senhor desde
que vim trabalhar aqui.”
“Mas o que você faz com todo esse
dinheiro, Simão?”
“Movimento no mercado de
capitais.”
“Você deve estar rico, Simão. O
mercado de capitais nunca deu tanto dinheiro.”
“Não posso me queixar, dr.
Pinto.”
“E por que continua trabalhando
como ‘valet de chambre’?”
“Porque pessoas como o senhor
precisam de ‘valets de chambre’ e eu preciso de pessoas que precisam de ‘valets
de chambre’. É o que eu faço, dr. Pinto. Eu não existiria se não tivesse alguém
como o senhor para vestir, perfumar, escovar, aconselhar e roubar. É a minha
vocação.”
“Bom, você não terá mais o que
roubar de mim. Estou quebrado. Arruinado. Liquidado.”
“Sim, dr. Pinto.”
“Estou até pensando em me
suicidar.”
“Sim, dr. Pinto.”
“Por falar nisso. O que se deve
usar num suicídio?”
“Depende de como o senhor
pretende se matar, dr. Pinto. Se prefere se atirar pela janela, sugiro algo
elegante mas discreto, que não choque demais na calçada, onde a sua chegada já
será atração bastante. Uma echarpe de seda branca esvoaçante daria um bom
efeito na queda.”
“Por que você não me empresta
dinheiro, Simão? Pode ser o que você roubou da cômoda. Eu recomeçaria. Sou um
empreendedor. Só preciso de dinheiro para empreender. Em pouco tempo lhe
pagaria tudo que você tirou de mim, mais os juros.”
“É uma boa ideia. O senhor
continuaria vivo e eu continuaria ‘valet de chambre’. O que o senhor me daria
como garantia para o empréstimo?”
“Garantia, Simão?! Mas eu não
tenho mais nada!”
“Neste caso, dr. Pinto, sinto
muito...”
“Mas e todo o tempo que estivemos
juntos, Simão? Não vale nada?”
“O senhor mesmo me ensinou que
não se deve misturar negócios com sentimentalismo, dr. Pinto.”
“Pensei que você não estivesse
prestando atenção... Bom, só me resta o suicídio. O que você sugere, Simão?”
“Qualquer coisa menos cortar os
pulsos e botar a cabeça dentro do forno do fogão. Nada combina com pulsos
cortados, e não há maneira elegante de morrer com a cabeça dentro de um fogão.
Sugiro pílulas para dormir. Assim poderemos vestir o nosso robe de seda e o
senhor será encontrado na cama numa posição contemplativa de extremo bom gosto,
como se estivesse meditando sobre as cruezas do capital.”
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