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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Da Califórnia de João Bendito




OS ALBUNS DAS FOTOGRAFIAS

Conheço muito pouco da vida do grande actor de teatro e cinema das décadas de 20 e 30 do século passado, John Barrymore. Foi um aclamado intérprete dos clássicos, nomeadamente de Shakespeare e acabou a sua vida de boémio quase
em desgraça, depois de vários casamentos e divórcios. Uma frase que lhe é atribuida e que me passou diante dos olhos em algo que li recentemente, ficou-me registada e vou tentar lembra-la no futuro. Dizia ele que "UM HOMEM PODE CONSIDERAR-SE VELHO NO DIA EM QUE TIVER APENAS SAUDADES EM VEZ DE SONHOS". Eu também penso que sim, é muito bom sentir saudades das coisas boas que nos foram acompanhando nesta caminhada mas ao mesmo tempo acho que é de primordial importancia que se continue a sonhar, a olhar o futuro com muita esperança .
Vieram-me estes pensamentos à cabeça recentemente quando me vi envolvido nesta praga moderna do "facebook", esta maravilha criada no principio deste século e que veio revolucionar a maneira de comunicar através da internet. Tentei resistir e não ligar muita importância, nos primeiros contactos que tive com este fenómeno eu quase que desdenhava do que lá via, achava que aquilo era uma maneira de se poder mexericar na vida dos outros sem que eles soubessem quem lhes estava a espiolhar as conversas. A minha cara-metade aderiu inicialmente mais por influencia das minhas filhas e porque viu que era na verdade uma ferramenta que tinha os seus méritos. O problema é que ela começou a receber na sua página mensagens e pedidos de intercambio que eram mais dirigidos a mim do que a ela e então não houve outra solução senão abrir uma página para mim. E pronto, no espaço de poucos dias passei dos meus iniciais quatro "AMIGOS" para ...quarenta ! Foi como que tivesse largado lume a um rastilo ou a um fardo de palha seca, foi um nunca mais acabar de amizades renovadas, além de me ter posto muito mais activo com os contactos que já tinha no dia a dia.
A maioria destes meus "amigos" digitais são realmente pessoas que eu prezo em ter como tais, pessoas com quem cresci e de quem fui colega de escola ou de trabalho. O facto de ter saído da Ilha já há mais de trinta anos fez com que viesse agora a reencontrar pessoas que já não vejo nem tinha contactos desde essa altura, o que veio trazer um renascer de laços que porventura já estavam bem fracos ou quase esquecidos. Noutros casos até reparei que fui alvo do ..."Olha este, há que tempos que não o vejo..." e bumba, carrega-se no "accept" e já está, já somos amigos outra vez e nem sequer trocamos uma mensagem de saudação. Dá para entender que muita gente parece que quer é ter o recorde de mais amizades conseguidas. Noutros casos tenho visto a minha página enfeitada com pedidos para aceitar conhecidos que não passam disso mesmo, pessoas que sei quem são mas com quem nunca tive o mínimo de contacto para além do ocasional "OLÁ" quando com elas me cruzava na rua.
Outro dia li um comentário de um antropólogo inglês que sustentava a ideia que o nosso cérebro só pode gerir um numero bem limitado de amizades e isso mesmo confirmei na página virtual do "Diario Insular" no excelente artigo publicado em 21 de Março de 2010 e subcrito por Oriana Barcelos no qual a sra. jornalista se faz acompanhar com comentários de um jornalista e escritor (Joel Neto), um sociólogo e um filósofo que, muito acertadamente, nos avisam dos perigos e nos alertam para as virtudes destas plataformas sociais. Todos são unânimes em afirmar que é uma ferramenta extraordinária, um abrir de possibilidades e uma boa maneira de manter contacto com quem está longe e até com quem está quase ao alcance de um abraço. Mas também nos querem aconselhar dos males que podem advir do abuso ou uso impróprio e excessivo, principalmente no que concerne ao tempo que por ventura, uns mais do que outros, dedicamos a matracar nas teclas do computador.
Mas o ponto que eu queria devotar um pouco mais de atenção neste conjunto de parágrafos é o facto que temos sido bombardeados ( eu e os meus amigos digitais ) com uma quantidade enorme de fotos "dos tempos de antigamente". Aliás, eu próprio também tenho sido um pouco abusador nesse aspecto, as minhas escolhas estão aí para quem as quizer visitar. Num abrir e fechar de olhos nos transportamos de novo para os bailhes dos Liceus, para as trafulhices das Touradas dos Estudantes, para os passeios de fim de curso ou mesmo só para uma ocasional banhoca na Silveira ou na Praia dos Sargentos, para as curvas e derrapagens dos Ralis, para as equipas de futebol onde os futuros "Laureanos" e "Airosas" se perfilhavam a sonhar com as velhas glórias, para as mais recentes viagens a bordo dos luxuosos navios de cruzeiro ou à memorável semana que passámos em Maui ou na Republica Dominicana, enfim, tem sido um tal visitar os albuns particulares de cada um e que passaram a pertencer a todos nós.
Na casa da minha juventude, o album das fotografias era algo de sagrado, estava sempre bem guardado na dispensa e só era visionado quando nos calhava ao serão um primo mais distante ou um amigo de longa data que gostaria de ver as fotos dos casamentos, baptizados e dos "pequenos" quando tinham já uns mesinhos de idade e eram estratégicamente deitados numas almofadas com o fatinho com que nasceram. A grande maioria das nossas fotos de estúdio foram da autoria de um grande profissional da Foto Perlino, o sr. Orlando Baptista que era também grande amigo (não no Facebook, que não havia nesse tempo...) do meu Pai e talvez por isso mesmo o homem se esmerava e fazia sempre um número extra sem o patrão saber. Ainda me lembro bem da nossa primeira e talvez única máquina fotográfica, claro produto americano comprado na Base e que tantas arrelias dava à minha Mãe, o raio das lâmpedas do flash nunca trabalhavam, descobriu-se que se usasse uma prata de chocolate por detrás sempre lá de vez em quando o desejado relâmpago nos fazia fechar os olhos.
E ainda me lembro muito bem das correrias às segundas-feiras a seguir a um bailhe ou uma tourada de Carnaval para ter a primeira escolha nas fotos que a Foto Madeira, o Mini Foto ou a Foto Liláz punham em exposição todas devidamente numeradas e prontas para a nossa compra. Havia também alguns "melros", por acaso com falta de uns tostões, que se aproveitavam das capas e batinas com algibeiras grandes e arrumavam muitas sem os empregados de balcão darem por isso.
Agora, com as novas tecnicas, não há cão nem gato que não tenha uma máquina digital e até um computador, as fotos ficam todas armazenadas nas memórias e já ninguém tem um album em cima da mesa da sala. Eu tambem sou pecador nesse aspecto, tenho milhares de fotos guardadas na memória digital e só uso a minha impressora para "revelar" algumas de que gosto mais, ou mando imprimir via email a uma loja especializada. Acabaram-se os fotógrafos tal qual nós os conheciamos antigamente ? Penso que não, vai haver sempre um casamento ou uma Marcha de São João que vão permitir o continuar da profissão.
Fico é a pensar o que é que os meus amigos do facebook vão usar nas suas páginas quando se esgotarem os mananciais de fotos antigas ou chegarem à última folha dos seus albuns. Sei que o M.V.M. , o C.M.E., o J.M.G., o....enfim, todos os meus comparsas nestas trocas vão ter outros assuntos que nos vão permitir continuar com estas conversas electrónicas a longa distancia, aliás muitos não se limitam só a mandar e comentar nas fotografias, eu próprio tento manter uma variedade de "posts" que de algum modo possam deixar os meus amigos saberem do que vou fazendo ou pensando. Oxalá possamos ir seguindo sem nos deixarmos levar pelas legendas de que "no nosso tempo é que era bom", "aquilo era tudo malta que já não há igual", "o nosso Grupo de amigos é que era especial", "já não se fazem coisas assim",... Vamos a ver se não acabamos por ter só SAUDADES e envelhecemos mais cedo, não queria que o sr. Barrymore, que viveu muito antes destas comunicações sociais, nos aponte o dedo e nos venha dizer que já nem sabemos sonhar.

Hayward, California, Abril 4, 2010.

João C. Bendito.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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