Eça de Queirós, por
António
Bem
conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas,
interpretadas, reinterpretadas e discutidas, ora elogiadas, ora abominadas, à
luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história
literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela
sociologia
literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais,
pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo
mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e
sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu
tempo e desmentido do que ele foi, românticos, tardo-românticos e
pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça.
Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da
complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância
diversificada de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem
dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!
Não vou por aí, porque, tal como muitos
outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à
personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever a
literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas
encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma
de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século
XIX para o século XX.
De forma mais clara, reporto-me a vários
aspetos deste tema tão amplo como, para mim, fascinante. Por exemplo, ao facto
de personagens literárias de outros escritores comparecerem nos relatos de Eça,
mencionadas pelos seus narradores ou pelas personagens queirosianas
propriamente ditas. Num outro plano, o conceito de personagem emerge
pontualmente na ficção de Eça, a propósito das histórias contadas e não
raro com intuito argumentativo. Para além disso, a ficção pode ser
lida não como um “espaço” fechado, mas como um campo sem fronteiras rígidas,
campo que pode ser “invadido” por seres (por personagens) que nele
penetram sem grandes restrições. Desponta aqui, naturalmente, a noção que é uma
das estrelas mais brilhantes da constelação dos modernos estudos narrativos: a
metalepse.
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