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sábado, 6 de outubro de 2018

Da minha janela uma espreitadela pelo facebook


Terra Garcia

ÁLVARO DE ORNELAS OU A TIA ARMINDA?
(Há que tempos escrevi isto? Hoje fizeram-mo lembrar.)

O porto comercial do Pico acaba de ser contemplado com uma nova lancha de pilotos à qual foi dado o nome de “Álvaro de Ornelas”. Não sei nem imagino de quem possa ter vindo tal ideia. De igual modo, muitos dos leitores não saberão quem seja ou tenha sido esse tal d’ Ornelas. Mas pensarão, com certeza, que o sujeito em causa não será nada menos do que um figurão graúdo ligado à nossa história ou política e a merecer, assim, um nome tão publicamente exposto e imposto à veneração das gentes picarotas e viajantes de passagem pela ilha.
Verdade que Álvaro de Ornelas foi nomeado primeiro capitão donatário da ilha do Pico. E pela nomeação teórica se ficou porque cá nunca pôs os pés nem enviou emissário e muito menos delegou em alguém o seu poder a fim de empreender a realização das tarefas a que se obrigava face ao cargo assumido. O seu procedimento para com a ilha foi de puro e absoluto desprezo e indiferença. Nada do que aqui houvesse ou pudesse acontecer lhe interessou minimamente. Por isso Álvaro de Ornelas foi, segundo a histórica realidade que nos coube, o primeiro responsável por sermos hoje uma ilha menor ou de segundo plano no contexto regional açoriano. Ficou-se lá pela Madeira e morreu sem saber exatamente como era esta ilha do Pico que lhe fora superiormente doada. Isso mesmo reconhece o historiador picoense, comendador Ermelindo Ávila, no seu último livro “Lajes do Pico – Primeira Povoação da Ilha”.
O descuramento do povoamento do Pico e anos de atraso em relação às ilhas vizinhas foi o legado único de Álvaro de Ornelas. Agora, em compensação e em jeito de apreço, distinção, reconhecimento ou gratidão, (?) seja o que for, o seu nome impõe-se e eleva-se com ostentação e altivez como se de um herói se tratasse.
O que terá motivado alguém, neste tempo presente, a lembrar e sujeitar os picarotos ao tão justamente esquecido e ignorado nome de Álvaro de Ornelas? Com que finalidade? Talvez nos queiram apenas recordar a nossa condição de eterna subordinação, a nossa pequenez assumida sem protesto ou, quem sabe, nos queiram simplesmente abafar os escassos gritos de revolta e o inconformismo de alguns menos comprometidos… Seja qual for a intenção, não deixa de ser um insulto e agravo ao Pico e às suas gentes. Mais adequado teria sido o nome de Salazar, o odiado estadista, deposto de todas as placas e monumentos no purificante fervor de Abril. Também esse nunca veio ao Pico mas lembrou-se de nós algumas vezes e, segundo consta, morreu convencido de que, há cinquenta anos, tinha mandado construir um aeroporto na nossa ilha a partir de projeto e estudos capazes e adequadamente efetuados que, infelizmente, não serviram de orientação para a construção da atual pista. 
Pessoa atenta lembrava-me há dias uma figura popular que muito fez pelas gentes e famílias do Pico e nunca teve reconhecimento público nem homenagem de ninguém. Não será caso único, mas apenas um entre vários. Trata-se da Tia Arminda (parteira) que percorreu algumas freguesias assistindo partos, muitas vezes acompanhando o médico municipal em casos mais difíceis. Essa, sim, merece o reconhecimento de várias gerações que, como eu, viram pela primeira vez a luz do dia e se integraram no ambiente sadio da ilha amparados pelas mãos experientes e serviçais da Tia Arminda.
Mas se acaso quisessem homenagear alguém ligado ao mar, ao porto do Pico ou até a São Roque, não faltam nomes por onde escolher que, num relance, nos vêm à mente entre tantos dignos de memória: os Pé Leve, Canecas, Fulas, Bispos, Roazes, Aldeias… Até mesmo o José Moreia, figura excêntrica e prestável, acarinhada pelos picarotos, fez mais pela nossa terra do que tão ignóbil donatário.
Bom seria que aprendêssemos a valorizar quem o merece. É já tempo de deixarmos de comer as maçãs podres e guardar as sãs para levar de presente a este ou àquele senhor, só porque é senhor, mesmo que injusto e explorador de vidas e haveres.
Como picaroto não podia deixar de registar publicamente a minha total discordância e indignação. 
Basta de atirar insultos à cara dos picarotos.
Terra Garcia
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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