JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Da Califórnia de JOÃO BENDITO


A LARANJA PODRE

Os nossos olhos pregam-nos partidas. Quantas vezes olhamos uma coisa e vemos outra. Ou pensamos que vemos.
São famosos os chamados Testes  de Roschach em que um borrão de tinta numa branca folha de papel é interpretado de maneiras diferentes, conforme for o número dos observadores. Uns vislumbram dois elefantes unidos pelas trombas, outros vêem namorados aos beijinhos e ainda outros não conseguem ver coisa nenhuma, apenas... um borrão de tinta. O cérebro humano é misterioso neste aspecto. As mensagens que lhe são transmitidas pelos nossos olhos podem ser deturpadas de tal modo que ficamos a ver navios, como dizia o meu avô “Rato” da Graciosa, quando o Tamagildo pestanejava para bem de conseguir perceber o que lhe diziam, principalmente se estava com o juízo toldado por uns copinhos de vinho branco. Ainda gostaria de saber o que o Tamagildo iria descobrir se alguma vez lhe tivessem mostrado um borrão de tinta num papel.
O fanatismo, as crenças, a fé cega e deseducada têm muitas culpas no cartório. Por teimosia ou por estupidez, acabamos por ver apenas o que queremos ver, não a realidade. Também já me aconteceu a mim, quando os adversários marcam golos contra a minha equipa, eu vejo os avançados todos em posição de fora-de-jogo. Os árbitros é que são uns cegos, penso cá com os meu botões. Mas, a sério, não é assunto que desmereça a nossa atenção, a lógica e a ciência, misturadas com uma boa dose de educação, são as ferramentas que podem resolver as disputas.
Os jornais e as televisões consolam-se com os casos de falsas interpretações ou de visualizações desconectadas. Não foi há muito tempo que um sujeito qualquer tentou vender na internet uma fatia de pão torrado onde ele “via” a cara de Jesus Cristo. Não foi o primeiro nem será o último, aparece sempre um chico-esperto a experimentar iludir quem não tem os olhos bem abertos.

De repente lembrei-me de quem já conseguiu descrever este fenómeno de uma maneira bem poética. Esta dualidade de interpretações, este puxar da brasa à nossa sardinha, foi cantada por António Gedeão de uma forma tão simples quanto elucidativa, que aqui resumo:
Os meus olhos são uns olhos./ E é com esses olhos uns/ que eu vejo no mundo escolhos/ onde muitos, com outros olhos,/ não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores./ De tudo o mesmo se diz./ Onde uns vêem lutos e dores,/ uns outros descobrem cores/ do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas/ onde passa tanta gente,/ uns vêem pedras pisadas,/ mas outros gnomos e fadas/ num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,/ que ser depois ou ser antes./ Cada um é seus caminhos./ Onde Sancho vê moinhos/ D. Quixote vê gigantes...
Veio isto tudo a propósito de uma laranja! É verdade, uma simples laranja ia provocando uma guerra entre amigos. Claro que estou a exagerar, eu nunca ia permitir que uma peça de fruta fosse perturbar as minhas relações de amizade. Mas, por outro lado, são estas pequenas coisas, estas pequenas discussões que podem deixar mazelas e desconforto entre pessoas que já se conhecem há muito tempo. Quando eu pensava que ia ficar famoso, que teria a possibilidade de enriquecer se me batesse à porta o representante de um jornal ou de uma televisão para comprar a minha laranja e mostra-la a todo o mundo, ela... apodreceu!
Foi na véspera de Natal que a encontrei. Um colega levou para o trabalho um caixote cheio de laranjas-de-umbigo e alguns limões. Separei um raminho de limões para trazer para casa e dei com os olhos numa das laranjas. Foi com esses olhos uns que eu descobri umas formas estranhas no umbigo da dita cuja. Olhando de um lado, pareceu-me ver um hipopótamo, bem roliço e cheio de pregas; contudo, olhando de determinado ângulo, não mirei gnomos e fadas num halo resplandecente mas sim o que me pareceu ser o perfil quase perfeito de um monstro (no sentido de grande, enorme, digamos assim) da política mundial. Até a cor alaranjada do sujeito estava a condizer...
Tive o máximo de cuidado em não mencionar o nome da figura que me saltara à mente quando publiquei a fotografia da laranja e a descrição do meu achado na minha página do Facebook. Sim, porque como tudo o que de mais ou menos estranho que nos acontece tem de ir parar ao Facebook, eu não quis perder a oportunidade de tentar ser engraçado. Alguns amigos enxergaram a semelhança que eu apontara e até fizeram comentários espirituosos, próprios para a situação; contudo, outros viraram a brincadeira do avesso e quase que me comiam vivo. Quais cavaleiros bem treinados, puseram-se a defender o seu rei (que vai nu...) como se o visado fosse um santo imune a qualquer mácula. Não me ofenderam com os epítetos com que agraciaram a minha personalidade porque já aprendi que não são capazes de outros argumentos e aceito que possam ter fé noutros Deuses que não os meus, que no mundo deles não se vêem escolhos nenhuns. Como muito bem disse o poeta, cada um é seus caminhos.
A laranja, pois essa já apodreceu. Há poucos minutos ouvi o carro do lixo a fazer a barulheira do costume na rua e fiquei com pena por que ela é que foi a vítima, em vez do pilantra que eu tão ferverosamente lá vi representado.
Tal pena! Mas, prometi a mim mesmo, vou observar bem todas as fatias de pão torrado dos meus pequenos-almoços. Se calhar, um dia aparece-me no prato o semblante do mesmo artista, enfeitado com um pedaço de doce de laranja a servir de cabeleira. 
Quando será que acordo deste pesadelo???
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário