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sábado, 19 de janeiro de 2019

Da poetisa-escritora MARIA AZEVEDO


Tinta poética

       Á Daniela, pela maravilha das suas telas.

       Era uma vez alguém que pintava...
       Das suas cores como ondas debruçava-se o oculto inicial dos corações.
       Tinha-se decidido: Ela tinha tons como pássaros, não eram ruidosos, mas de amor e de ternura, olhavam o mundo como o vento, como a chuva, com as asas na noite desconhecida, trazendo cada ser até á própria labareda.
       Eram pinceladas num ar de ribeira quando nasce e uma forma repleta de passos de indagar, inclinando-se para um centro concêntrico, um ponto crucial.
       Os meus olhos observavam-nas lendo-as, como de se movimento da alma contra o espelho, investigando a força por dentro das cores.
       Por detrás do dia o tempo passou, enchendo a delicadeza das folhas e dos frutos.
       Nem me tinha dado conta que estava numa espécie de estática loucura, à espera que as águas, os astros e as preces caíssem das telas numa fechada exaltarão.
       E tudo surgia entre o espaço violento dos dias do sentir e a simplicidade dos seres.
       Durante muitos dias o espírito da pintora caía de dentro das suas mãos para o rugoso do papel.
       Talvez por isso me tivesse dado para senti-la e à forma como se mostrava cúmplice da chuva, das noites e dos seus personagens vagarosamente purificados.
       Fui vendo nascer o sonho de incontidas primaveras, árvores inspiradas, mãos escurecidos de tempo, olhos de incalculável ausência e a candura quase a corromper-se à força da candura.
       Havia esta mulher, que pintava como pelo orvalho do sentir, pintando, corações extasiados, respirando como luzes transformadas, como uma qualidade ardente de uma para outra coisa.
       No meio desta arte a sua tinta era total, estando de tal modo embebida que vivia unicamente.
       Rompe-se o espaço, transponho a distância e vejo nos seus quadros, rostos extenuados, envolvidos pelo silêncio, ganhando uma duração de sombras inclinadas, no perfeito coração do tempo.
       À sombra das suas mãos, ali estava ela, transmudada nas suas telas, colocada na doce integridade do espaço, e na imobilidade das cores, o pudor da imagem onde coagula a leve espessura dos corações, esses que ardem na assimetria festiva e sagaz das lunações e dos rios.
       Fiquei-me a pensar, cada um dos pensamentos daquela mulher que pintava, sentindo-a tão forte e tão preenchida pelo quente silêncio do que se não sabe.
       Aconteceu esta pintora pelo meu silêncio dentro, porque as cores cantavam nas suas mãos respirando como as árvores soprando de dentro das sementes.
       A noite corre, o ar insufla o tempo, eu olho as telas por onde escorre o silêncio aplainado noutra cor, e pergunto: Onde vais assim encostada à rosácea do teu coração?
       Sorria em mim a pintora de sonhos, como se a meia voz se entontecesse a vida, dolorosa e doce absorção do toque dos tons, pelo ritmo: Alquimia, conjunção astral, o que quiserem!
       São as próprias cores das aves nas suas tintas, digo eu que sou tu cá, tu lá com os pássaros.
       Nem todos os quadros têm o dom de serem habitáveis.
       O meu quadro da “Menina persistente” é como uma história-casa que habito.

 Obrigada

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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