ESCANHOAR OU NÃO ESCANHOAR
Herbert Block, que se assinava “Herblock”, foi chargista do
Washington Post por mais de 50 anos, durante os quais não faltaram alvos na
política e na sociedade americanas para sua pena afiada. O senador McCarthy,
furioso caçador de comunistas, ameaçou processá-lo mais de uma vez, e só
conseguiu ser ainda mais ridicularizado. Mas o alvo preferido de “Herblock” foi
Richard Nixon, quando este começou a se destacar como um político não, digamos,
muito limpo. O chargista o retratava saindo de
esgotos e aprontando maldades, e sempre com a barba por fazer, para realçar seu
ar meio sinistro.
Apesar da cara inconfiável e da ausência de qualquer tipo de
credencial para o cargo, Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos, e
governou até cair, vítima do escândalo de Watergate e das suas próprias
mentiras. Mas a charge do Washington Post depois da eleição de Nixon
surpreendeu todo o mundo. “Herblock” o desenhara saindo de uma cadeira de
barbeiro, exemplarmente escanhoado. A legenda da “charge” era “Na barbearia do
Herblock, todos têm direito a pelo menos uma barba de graça”. O que não quis
dizer que no dia seguinte o agora presidente não voltasse a ser alvo do
chargista, com barba cerrada e tudo
Escanhoar ou não escanhoar? A escolha é entre continuar
lamentando a eleição de alguém como o Bolsonaro, cercado dos seus generais, ou
aceitar o inevitável e lhes dar um crédito mesmo temporário, de confiança, já
que o governo do cara ainda nem começou, poxa! A escolha é entre coerência e
rendição – uma escolha que teremos de fazer, já que tudo indica que o governo
que se aproxima vem cheio de contradições e choques de egos, pedindo uma
imprensa investigativa como nunca antes. Eu, por sinal, escolho a coerência.
Por falar em charges: nosso “Herblock”, o Chico Caruso, fez uma
que resume tudo. O governo em formação: “Menos médicos, mais milicos”.

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