O governo que me faltou
Há duas ou três semanas passei por uma experiência muito traumatizante.
Na via rápida, como toda a gente já reparou, há uns painéis suspensos. Um à vista de quem vai de Angra para a Praia, outro para ser visto em sentido contrário. Com umas letrinhas escritas, muito úteis para os condutores. Até março, desejavam boa viagem e informavam sobre a temperatura ambiente.
Os tempos de pandemia impuseram uma mudança de escrito: “use máscara, uma mensagem do governo dos Açores”.
Pois naquele dia do trauma que hoje vos relato, só tinha “use máscara”. A assinatura “mensagem do governo” tinha desaparecido.
Confesso que fiquei desorientado. Habituei-me de tal maneira a ver mensagens do governo em tanto lado que, quando me falta alguma, fico sem saber o que fazer. Os governos do PS, onde metem a mão, não deixam os seus créditos por mãos alheias. Fazem questão que toda a gente saiba que esteve ali quem manda.
No episódio que agora nos ocupa, imaginemos a mensagem inicial apenas com o “use máscara”. Seria o caos.
Desde logo, todo o povo a se interrogar sobre quem teria metido ali tais dizeres. Um lavrador ocioso, para se entreter enquanto as vacas mudavam de pasto? Outro partido qualquer, sendo que, neste caso, só poderia ser da oposição? A justiça da noite? O Zorro?
Mas, depois, viria a falta de obediência costumeira. Se fosse um chico de qualquer esquina a mandar o uso da máscara, já estou a ver que ninguém usava. “Vou usar máscara mas é o…”, seria a boca mais ouvida na via rápida. Sendo uma mensagem do governo, outro galo canta, fia mais fininho. “O melhor é tapar as fuças antes que seja despedido, eles mandam em tudo e sabem tudo, quem se mete com esta gente leva…”.
Por estas razões, mais uma de somenos importância, que é a de não se poder desperdiçar a mínima oportunidade para se fazer propaganda, o governo assinou logo a tal mensagem. Quando não vi a assinatura, fiquei num estado de nervos que só vos conto agora na esperança de que algum governante leia estas linhas e não volte a repetir a graça.
É que a gente fica perdida sem a vossa presença, senhores do poder. Sem sabermos o que fazer, se metemos, se tiramos, pisca para a esquerda, pisca para a direita, máscara nos olhos, risco de acidente… Perdidos e baralhados do miolo. Por que teria desaparecido o governo do painel? Ter-se-iam fundido as lâmpadas? E logo as mais importantes? Tratar-se-ia de vandalismo? Logo à beira de eleições, falta-nos o farol, o guia, o pastor?
Isto para mim é muito mais grave que o mail que recebi da Autoridade Tributária. Quando abro o meu email e vejo que a proveniência é aquela autoridade fico logo em sentido. Vou pagar mais algum imposto inventado à pressa? Esqueci-me de algum pagamento?
Comecei a ler o dito mail com as pernas a tremer, embora com a sensação de que nada devo. Afinal, era sobre o voto antecipado. Mas o que é que as Finanças têm a ver com isto das eleições, perguntei-me, acho que com alguma legitimidade. No fim da leitura, descansei. A cartinha estava assinada pelo governo dos Açores.
Veio então o governo esclarecer: que só as Finanças tinham acesso a todas as almas por aqui residentes. Que tinha sido com informação prévia e acordo da Comissão Nacional de Eleições. Mas, que diabo, se a Comissão Nacional de Eleições acha que é muito útil levar a todos os cidadãos a notícia de que podem votar antecipadamente, por que não assinou a Comissão Nacional de Eleições o lembrete? Por que tinha de ser o governo?
Seja como for, antes assim. Antes estar a coisa das Finanças assinada pelo governo, dizendo que o futuro dos Açores está nas nossas mãos, do que um painel a dizer “use máscara” apenas.
Ainda por cima quando há um cartaz que diz que os Açores precisam do nosso voto… De quem será?
Um dia destes trancam um cartaz desses no painel luminoso da via rápida. A mensagem do dito é muito parecida com a do final da cartinha das Finanças. Que nunca lhes caia a máscara…
António Bulcão

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